Etapa 2 – Relatório 9

12.DEZ.2002

Ola amigos, acabo de passar por um dos países mais pobres e interessantes do mundo – Laos. Viajamos no tempo ao cruzar as tribos do norte do país. Passamos pela montanhosa região de Oudôm Xai e agora estamos pedalando pelo fértil vale do rio Mekong.

mapa

Antes de cruzar a fronteira para Laos percorremos um pequeno trecho ainda na Tailândia. Em uma das paradas encontramos uma pousada que coincidentemente estava celebrando um casamento. Entramos na pousada para perguntar o preço e quando percebemos já estávamos no meio do cerimônia. Era um americano casando com uma tailandesa. Para nossa surpresa o marido interrompeu o casório, desceu do altar e nos convidou para a festa. Nossa conversa foi prolongando até a hora em que a irmã da noiva puxou o americano novamente para o altar. Entendemos então a animação do americano com a nossa companhia – ele não tinha ninguém para conversar em inglês com exceção da esposa que estava ciceroniando a família na festa. Passamos toda a noite conversando com o amigo recém casado que, depois que o filho morreu no atentado de 11 de setembro, resolveu abandonar os Estados Unidos e viver nas montanhas da tailandesas.

Depois da farta noite pedalamos até a fronteira em Chiang Kong e o tempo mudou totalmente. O sol desapareceu e choveram quatro dias sem parar. As estradas em Laos são de terra e estão em péssimo estado. Ficamos prorrogando por três dias o início da pedalada na esperança do sol reaparecer e o barro da estrada diminuir. Aproveitei esse tempo para fazer, junto com os amigos da Bloomingdale-Malásia, um filminho comemorando um ano na estrada.

filme
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A chuva diminuiu e pegamos um barco para Pakbeng, atravessando a fronteira pelo rio Mekong. O barco é um pau-de-arara de turistas. Antes de partir foi preciso pleitear com o piloto para dividir os passageiros em dois barcos pois a lotação já tinha explicitamente ultrapassado o limite de segurança. Para chegar em Pakbeng o barco fez duas paradas na beira do rio. Numa delas um espanhol foi descer do barco e caiu na água poluída. Urgh. No outro dia os turistas vieram com a notícia de que além do lixo que comumente bóia na beira do rio Mekong eles viram também um corpo flutuando com as mãos amarradas. !!

A primeira “cidade” de Laos deixou claro o que viríamos nos próximos dias. A cidade é a apenas uma rua de barro, sem luz e muita pobreza. Encontramos uma guest house para dormir e fomos retirar as bagagens das bicicletas. Em menos de cinco minutos recebemos mais de dez ofertas de drogas. Toda fronteira do país é região de tráfico. Laos ocupa o posto de terceiro maior produtor mundial de ópio, base da heroína, depois de Mianmar e Afeganistão.

A guest house que ficamos era estranhíssima. Durante todo o tempo alguém batia na porta do quarto para oferecer drogas. Numa das vezes quase tive de brigar quando um deles chegou a entrar no quarto e encostar a mão na nossa bagagem. As paredes eram feitas de bambu trançado e não davam nenhuma segurança. A única coisa que nos deixava mais tranquilos era que todos quartos estavam ocupados por turistas na nossa mesma situação e qualquer problema maior sabíamos que não estávamos sozinhos. As dez horas da noite o gerador foi desligado e a porta da rua trancada. A escuridão absoluta foi um pouco desconfortável mas nada que impedisse um bom sono. No meio da noite chegou um turista desavisado que ficou de fora da guest house. Ficou gritando da rua para ver se o dono abria a porta mas ninguém apareceu. De repente começou a esmurrar a porta até arrombar. Passado a barulheira voltamos a dormir. Mais algumas horas e umas mulheres do andar de baixo começaram a gritar. Ficamos meio dormindo, meio acordados sem saber direito o que estava acontecendo. Somente quando amanheceu fomos descobrir que os gritos eram por causa de uns ratos que passaram pela cama de duas turistas escandalosas. Dos males o menor. Quando partíamos me dei conta que minha velha jaqueta de chuva tinha sido roubada. Arrumamos nossas coisas e mesmo com sono pedalamos o máximo possível para nos distanciarmos daquela cidade.

Criançada correndo atrás da bicicleta

As primeiras pedaladas em Laos foram com muito barro e pouco sol. Nossa velocidade média caiu de 17 para 10 km/h. Dividimos a estrada com vacas, búfalos, porcos, perus, marrecos, patos, galinhas e MUITAS crianças. Atravessamos várias pequenas tribos e paramos nas vilas de Muang Houn e Muang Beng. Nos impressionamos com a simplicidade dos locais e alegria da meninada ao nos ver passar com as bicicletas.

Tirando o caroço do algodão

A distância temporal das civilizações no mundo são realmente intrigantes. É curioso ver num mesmo planeta uma comunidade desenvolvendo seres humanos artificiais e outra tirando caroço de algodão para fazer uma blusa. Nessas tribos de Laos a forma de vida parece ser a mesma há milhares de anos. Poucos possuem televisão, rádio, etc. Não possuem pressa e vivem o dia a dia sem uma ilusão ou expectativa de mudança.

As comunidades que visitamos em Laos e na Tailândia – Akha, Karen, Lisu, Lahu, Hmong, etc. – são muito parecidas com as comunidades Quíchua e Aimaras que conheci na Bolívia e Peru (Cordilheira dos Andes – Rota Inca). A falta de energia elétrica parece delimitar o comportamento dessa populações que são praticamente auto-sustentáveis. Eles produzem suas próprias comidas, roupas e casas – sempre utilizando material da região e conhecimento da sociedade local.

As comidas são arroz e sopas dos vegetais e animais que caçam ou criam. As roupas são feitas a partir do algodão. Toda produção é manual e geralmente é um serviço feito por mulheres. Possuem todas máquinas feitas com madeira – desde o descaroçador do algodão para fazer a linha até os teares. As construções são feitas em madeira e bambu. A casa se mistura com a rua e várias de suas funções estão dispersas pela vila – os banhos nos rios, as cozinhas comunitárias, as fossas, etc. O local onde dormem são com palafitas de madeira e paredes, pisos e tetos de bambu. Eles desenvolveram várias técnicas para impedir que os ratos subam pelas palafitas, uma delas é envolver o pilar com garrafas de vidro – o rato escorrega no vidro e não consegue subir. Alguns mais cuidadosos fizeram diferentes trançados com o bambu para construírem as paredes. As casas que possuem a sorte de estarem próxima a algum riacho canalizaram a água também com bambu e não precisam pegar água com baldes.

Janela de bambu

As ruas funcionam como um grande corredor dessas “casas-vilas”. As crianças passam o dia entre a escola e a rua, jogando bola e brincando. As mães ficam também na rua fazendo roupas, comidas ou tirando piolho da cabeça da filharada (e como fazem filhos! a média do país é de 4,8 filhos por mulher), os pais trabalham nas plantações ou caçam junto dos filhos mais velhos. Muitas mulheres não cobrem os peitos e quase todos tomam banho pelado nos rios.

Voltando do banho no rio

As escolas não possuem paredes laterais e vários alunos penduram um pequeno quadro negro no pescoço que funciona como caderno. Aproximadamente 40% da população é analfabeta. Numa vila encontramos um grupo de cinco alunos que estavam aprendendo a falar inglês. Toda a turma se juntou para conversarmos. -What is your name? How are you? I’m fine thanks, and you? Very nice! Alguns tremiam, era a primeira vez que conversavam com um estrangeiro, e por ali praticamente não existem turistas.

Escola sem as paredes laterais

Apesar do turismo estar em plena expansão ele ainda é infinitamente menor que na vizinha Tailândia. Há dois anos atrás foi publicado pela Lonely Planet um guia de viagem no Vietnã, Laos e Camboja para ciclistas e acredito que isso transformou a região no encontro mundial de ciclturistas. Com apenas duas semanas em Laos encontramos mais de trinta viajantes com bicicleta, foi a maior quantidade até hoje.

Um pouco da história de Laos...

Laos se tornou colônia francesa 1893 e mantém até hoje algumas influências – o lado que os carros andam nas ruas é francês, o contrário da “mão inglesa”, as pautas dos cadernos, os pãezinhos e as poucas casas de tijolo também mantém o estilo do colonizador.

Depois da ocupação francesa vieram os japoneses que ocuparam o país durante a segunda guerra mundial. Em 1953 Laos conseguiu a independência e começou sua disputa interna pelo poder entre os comunistas e monarquistas.

Durante a Guerra do vizinho Vietnã, a população civil de Laos foi alvo de mais de duas milhões de toneladas de bombas o que coloca Laos entre os países mais bombardeados do mundo.

“the tonnage of bombs dropped by US bombers on the northern Lao provinces of Xieng Khuang, Sam Neua, the Phong Saly between 1964 and 1973 exceeded the entire tonnage dropped over Europe by all sides during WWII”
Michael Buckley

Em 1975, após a derrota de Saigon (Guerra do Vietnã) o partido comunista Phatet Lao dominou a capital e fundou a Lao People’s democratic Republic.

Hoje Laos é um dos poucos remanescentes países comunistas no mundo. Somente o partido do governo é legalmente aceito e possui 98 das 99 cadeiras da Assembléia Nacional. A imprensa sofre censura e é bastante limitada.

A maior nota de Laos, 10 mil kips, vale apenas um dólar americano e existem notas que valem apenas cinco centavos. Quase não existem bancos no percurso e tivemos que trocar tudo que precisamos na fronteira. Foram tantas notas que chegou a fazer peso e ocupar espaço nas mochilas.

“The Asian currency crisis of 1997 caused the national currency, the kip, to lose more than nine-tenths of its value against the US dollar.”
BBC World

A densidade habitacional é muito pequena, são apenas 22,8 habitantes por km2. A população é de 5,4 milhões de pessoas divididos entre mais de 60 grupos étnicos. Mais da metade da população é budista. Vimos muitas crianças doentes, chorando todo o tempo e sem brilho nos olhos. A mortalidade infantil é altíssima, para cada 1000 crianças que nascem 88 morrem com menos de um ano de idade. Nossa preocupação com dengue e malária ficou ainda maior e usamos repelente de insetos todos os dias. A expectativa média de vida é de 55 anos para mulheres e 52 para homens.

Carregando água

Apesar dos estragos ambientais causados pelos bombardeios mais de 50% das florestas seguem praticamente intactas. Vimos poucos animais selvagens. Não existe nenhum animal morto na estrada. Parece que o motorista que tem a “sorte” de atropelar algum animal desce do carro e pega o que sobrou para comer na janta.

O país é rico em minerais mas estes ainda são praticamente inexplorados. A base da economia é a agricultura de subsistência e a exportação do ópio.

Depois de Muang Beng seguimos para Muang Xay. Antes de chegar no cidade fizemos uma parada na beira do rio e, junto com uma dúzia de pessoas tomando banho, fomos limpar nossas bicicletas que estavam totalmente cobertas de barro.

Muang Xay é a referência de cidade grande para toda a região. Possui uma dúzia de hotéis, eletricidade, banheiro com água quente e alguns restaurantes. Finalmente tomamos um banho de verdade e lavamos nossas roupas. De noite fomos num restaurante e me serviram um frango com tanta pimenta que pela primeira vez na viagem não consegui terminar meu prato. O banheiro desse restaurante é bastante “exótico”. Possui uma bacia de armazenar água para dar descarga com balde – o que é comum em quase todos os banheiros de Laos – mas além dessa função a bacia deste restaurante serve também para guardar os peixes ainda vivos. De tempos em tempos a cozinheira entra no banheiro com uma rede para pescar uma janta.

A partir de Muang Xay começamos a pedalar da estrada que liga a China à capital de Laos, Vientiane – o que não significou grandes melhorias na estrada. Seguimos para Ban Song Cha e, depois de atravessar duas grandes montanhas, chegamos de noite e descobrimos que a informação da existência de uma lugar para dormir estava errada, não existia nenhuma pousada ou algo parecido. Fomos então procurar um lugar para colocar a barraca, já prevendo muito frio na madrugada. Com a ajuda de um tradutor que milagrosamente apareceu fomos procurar um lugar com teto para colocar a barraca embaixo. O único local disponível era o mercado que a noite servia de casa para os porcos. Quando já íamos montar a barraca nos ofereceram um outro lugar para dormir – dividir um barraco de bambu com menos de 2 metros por 5. O dono do lugar aproveitou nossa situação e cobrou quarenta mil kips (4 dólares) para dormirmos. Para evitar o frio aceitamos a proposta. Resolvemos montar a barraca em cima de um pedaço de esteira de bambu dentro do compartimento para evitarmos insetos e ratos. Nesse momento já tínhamos causado um completo festival na vila. Todas crianças se amontoaram na porta e acompanhavam atentas. Tentamos tomar um banho sem público mas não teve jeito. Teve de ser na frente de todos. Com uma garrafa de água molhamos nossas toalhas e improvisamos um banho. Depois fomos jantar uma comida oferecida pela mãe do amigo tradutor.

De Muang Xay seguimos para Luang Prabang, cidade considerada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade desde 1995. Luang Prabang é uma exceção com relação a tudo que vimos no percurso. Uma cidade repleta de templos, excelentes restaurantes, hotéis e muitos turistas. Foi aqui que vivia a família real antes do exílio (atualmente vivem na França). A cidade é cercada por montanhas e fica na junção do Rio Khan com o rio Mekong e é de onde estou escrevendo para vocês.

Agora pretendemos visitar Camboja e voltar para Tailândia onde pegarei a nova bicicleta e tentarei algum apoio para conseguir trocar minhas câmaras fotográficas que estão com problemas.

Grande abraço, Feliz Natal, e até a próxima,
Argus

Para saber mais
Sites
www.pnm.my/motw/laos
www.visit-laos.com
www.asia-discovery.com/Laos
www.workmall.com/wfb2001/laos
www.unesco.org/whc/sites/479.htm
National University of Laos: www.canpub.com/nuol/