Etapa 2 – Relatório 7

31.OUT.2002

Ola amigos, estou atravessando a Malásia de sul a norte. Passei por Málaca, um dos portos mais importantes da Cia das Indias Orientais, visitei a capital Kuala Lumpur e agora estou quase na fronteira com a Tailândia.

Malásia é um país que desenvolveu muito nos últimos 20 anos. Sua indústria de eletrônicos e suas reservas de petróleo, gás, estanho, produção de látex e óleo de cozinha foram a base desse desenvolvimento. Hoje o país possui excelente qualidade de vida e uma boa infra-estrutura. O governo é feito por Sultanatos. São nove Sultanatos e a cada cinco anos um sultão é escolhido para governar. O primeiro ministro Mahathir bin Mohamad, no poder há mais de 20 anos, é tido por todos como o grande mentor do crescimento econômico nacional. – Temos um excelente primeiro ministro! Me responderam quase todos que perguntei sobre o desenvolvimento do país. Que inveja! Pela primeira vez na vida vejo uma população orgulhosa de seu governo. Quem sabe com o Lula, nosso novo presidente, um dia nós brasileiros possamos dizer o mesmo…

Além de produzir óleo de cozinha, as plantações de palmeiras são muito bonitas e dão um “ar tropical” no caminho. As paisagens foram revezadas pelo litoral oeste (sem muitas praias) e as florestas tropicais nas montanhas. O país é quente e úmido. Viajei somente pela costa oeste para evitar a costa leste que nessa época tem as monções e chove praticamente todos os dias.

Plantação de palmeira para extrair óleo de cozinha

O atentado em Bali repercutiu em todo o mundo e foi massivamente discutido aqui no sudeste asiático. Particulamente nunca estive tão próximo de um fato tão horrível. A bomba explodiu num local onde eu estava um mês antes. Infelizmente um dos amigos do exército brasileiro que trabalhava no Timor Leste estava no local e morreu. Vários crimes contra a humanidade como as bombas atômicas de Hiroshima e Nagazaki tentaram se explicar como “guerra”, hoje esses crimes não encontram explicações e são chamadas de “terrorismo”. É muita violência e ódio para aprendermos a respeitar-nos – parece que somente com a perda valorizamos da vida.

Apesar do atentado me sinto muito seguro aqui na Malásia. O país é totalmente desarmado. Aqui tem pena de morte para quem carrega arma e obviamente ninguém se arrisca. É radical mas funciona. Praticamente todos crimes com morte o bandido é preso e morto pela polícia. Algo que é motivo de orgulho para os malaios. Além do desarmamento o país possui grande igualdade social e praticamente não possui desemprego.

O serviço de inteligência do país é muito eficiente. O governo impede o surgimento de qualquer grupo radical. É permitido prender qualquer pessoa somente com suspeita – não precisam de provas. Segundo os malaios o serviço de inteligência quase nunca erra e quando prende alguém é porque a pessoa é realmente perigosa. Uma política que funciona muito bem por aqui. Um dos poucos países muçulmanos no mundo que conseguiu desenvolver sem problemas e respeitando todas outras religiões.

Mapa: rota na Indonésia e Malásia

Minha primeira cidade na Malásia foi Johor Bahru, extremo sul do país. A proximidade com Singapura faz com que os preços fiquem inflacionados. Fiquei um pouco assustado mas logo vi que afastando de Singapura os preços voltam ao normal. Tirando esse susto minha primeira impressão foi ótima. Lugar desenvolvido, limpo e todos falam inglês – boa herança da colonização inglesa.

Finalmente inaugurei a impermeabilidade dos meus alforjes com uma chuva morna que abençoou o início da viagem malaia. De Johor segui para o norte passando por Pontian e Batu Pahat.

Em Batu Pahat minha bicicleta quebrou e parei numa pequena oficina beira de estrada para soldar. Terminado o serviço perguntei quanto custava e Zabidin, o soldador, respondeu que não custava nada e se eu quisesse podia dormir na casa dele. Conheci então sua simpática família e durante a viagem percebi que isso foi apenas o começo de uma série de exemplos de hospitalidade do povo malaio.

De Batu Pahat segui para Muar, uma pequena cidade barra de rio. No centro antigo cada rua tem uma cor e na parte nova existe um jardim fantástico. Algumas calçadas do jardim são feitas de pedra roliça e as pessoas ficam andando descalças para massagearem os pés. De Muar fui para Málaca.

Málaca é um excelente porto natural e resume grande parte da história do país. Fica na barra do rio Málaca com o mar protegido pela ilha da Sumatra. É navegável durante todo ano e foi local de importância estratégica para o comércio marítimo onde estiveram os portugueses, holandeses, ingleses e japoneses.

Segundo Roland Braddell os primeiros documentos que mostram a península da Malásia datam de 150 d.C. nas descrições geográficas de Ptolomeu. Entre os séculos IX e XII a dinastia de Chailendras de Java, depois de construírem os templos de Borobodur e Prambanam, expandiram para a península da Malásia. No Séc. XIV o império javanês de Majapahit dominou Palembang na Sumatra. Um dos exilados de Palembang foi o príncipe Parameswara que se instalou em Málaca e iniciou um reinado que durou até 1511, quando os portugueses chegaram na península. Antes dos portugueses o porto já havia recebido visita de embarcações de várias partes do mundo, dentre elas a Arábia, Pérsia, China, Índia, Japão, Indonésia e Ceilão.

“Malacca is a unique township in Malaysia and Southeast Asia because her history is dense, romantic and uninterrupted…By the end of 60th century, there were over 300 Portuguese ‘Casados’ (married to local ladies) and the number of persons with mixed blood never stopped to groww. This mescegenation was the main asset of the Portuguese in Malacca, as in Brazil. The ‘Portuguese melting pot’ensured the preservation of the Portuguese language, the Catholic religion, the Portuguese food, folk dance and music…”
citação do ex-Embaixador do Brasil na Malásia Geraldo Affonso Muzzi no livro The Portuguese in Malay Land

A'Famosa - ruínas do forte português construído por Afonso de Albuquerque em 1511

Em 1641 os holandeses fizeram um acordo com o sultanato de Johor e tomaram Málaca. Os sultanato acreditava que com a expulsão dos portugueses eles conseguiriam o trono de Málaca mas os holandeses não cumpriram a promessa e transformaram a cidade num importante porto da Cia das Índias Orientais. Na Revolução francesa (1789-1799) os holandeses ficaram com medo de perderem Málaca para a França e passaram as terras para a mão dos ingleses entre 1795 e 1818. Novamente em 1825 os holandeses cederam Málaca para a Inglaterra que a dominou até 1941 quando os japoneses invadiram e tomaram o poder. Depois da II Guerra Mundial um movimento nacionalista culminou na independência do país que foi proclamada em Málaca em 1956.

Igreja católica construída pelos holandeses em 1753

Os diferentes países que estiveram em Málaca deixaram suas marcas e hoje a cidade é uma miscelânea de ruínas e museus das diferentes colonizações e batalhas históricas. A cidade se transformou em um dos centros turísticos da Malásia e possui uma boa organização para visitação. Caminhando pela cidade é possível percorrer todas as ruínas e ter uma boa noção da história das diferentes colonizações. Perto do centro histórico está a comunidade portuguesa, “Portuguese Settlement”, que foi fundada em 1926 e possui apenas descendentes lusitanos. O presidente da comunidade, Peter Gomez, contou que hoje já não existe mais espaço para tantas famílias que desejam morar no local. Segundo Peter são mais de 300 lotes mas ainda assim existe falta de espaço. A língua portuguesa que alguns deles falam é bastante diferente do português brasileiro e foi mais fácil conversar em inglês.

Algumas palavras do português surgiram na Malásia. O livro de Geraldo Muzzi cita alguns exemplos: bambu, jaca, junco, canja, lancha, ministro, manga, mangostão, pires, sagu, etc. Além da mistura de palavras foram também os portugueses que fizeram o intercâmbio de várias árvores e hoje tanto o sudeste asiático quanto o Brasil possuem as mangas, cocos, palmeiras, seringueiras, etc.

Já me acostumei a andar descalço nas casas e a comer com a mão e muita pimenta. A comida local é uma das maravilhas do país. Os temperos são deliciosos. Agora comecei a me integrar com outro costume um pouco raro para ocidentais: o arroto. Após o almoço as ruas se transformam em um festival. Para um ocidental é bastante engraçado estar em uma mesa e ver todos arrotando mas aqui é normal e várias vezes também participei para me integrar na melodia.

Além dos malaios existem aqui muitos chineses e indianos. Todos falam inglês o que está ajudando muito para conhecer o país. Sem querer fazer demagogia com patrocinador… Como é bom falar inglês! Para falar o inglês malaio é muito simples – basta acrescentar um “la” depois das frases e de tempos em tempos falar um aaaa desconexo. A comunicação fica perfeita la. E todos entendem aaaa.

De Málaca segui pelo litoral até Port Dickson. Dali pedalei em direção ao centro da península e fui para Kuala Lumpur passando pelas incríveis highways e pelo famoso Sepang Circuit onde são feitos vários dos Grand Prix de motocross internacionais.

Kuala Lumpur é uma cidade com 1 milhão e 500 mil habitantes e possui um dos prédios mais incríveis que já vi. Apesar da fachada de vidro ser uma opção anti-ecológica para um país quente (transforma o prédio em uma estufa e exige muita energia para o ar condicionado) as duas torres envidraçadas de Kuala Lumpur são incríveis e representam um marco do desenvolvimento do país.

Twins Towers - atual prédio mais alto do mundo com 451,9 metros de altura

A lua cheia trouxe boa sorte. O mundo dá voltas e em Kuala Lumpur tive dias de rei. Conheci, através da Embaixada do Brasil, Malkeet Singh e Cuuldep do Rotary Club Bernam Valley, um casal incrível que me hospedou e me proporcionou dez dias de muita fartura e bons momentos. Eu fiquei impressionado com a hospitalidade e amizade que tive de todos que conheci. Meus dias na capital foram agitados com muitas palestras e reportagens e finalizou com chave de ouro com o patrocínio de uma empresa malaia.

Usei o bom conhecimento do mar – toda tempestade passa – e esperei calmamente as trovoadas financeiras atravessarem meu caminho. Depois de onze meses pedalados finalmente consegui o patrocínio de uma fábrica de bicicletas. A T-bolt bicycles vai participar do projeto e disponibilizar uma bicicleta de fibra de carbono que está sendo preparada especialmente para mim. Que maravilha! Em aproximadamente dois meses terei a nova bike e seguirei viagem com a parceira “made in Malasia”.

Patrocínio da t-bolt bicycles - Malasia

Agora mais do que nunca senti firmeza na viagem. Desde que saí de Cordisburgo tenho recebido apoio de todos que encontro. Hoje estou aqui porque o mundo é feito por pessoas e não máquinas. Foram muitos que viram nessa viagem um sonho sendo realizado e contribuíram de alguma forma. Já não sei mais como agradecer a tantos. São muitos “anjos da guarda” me acompanhando, incontáveis mensagens por internet e força das pessoas que encontro pelo caminho. A todos muito obrigado!

Agora estou em Taiping, também sendo recebido pelo Rotary. Daqui passarei pela importante ilha de Penang que foi um porto da Cia das Índias Orientais e depois sigo para Tailândia.

“Even the tiger smell the roses.”
Malkeet Singh

Um grande abraço e até a próxima,
Argus

Para saber mais
Sites
www.melaka.gov.my
www.forestry.gov.my
www.fordham.edu
www.ethnologue.com
www.vidaslusofonas.pt
www.cncdp.pt
www.freipedro.pt
www.portugal-linha.pt

Livros
BRADDELL, Roland. Dato Sir – “A Study of Ancient Times in the Malay Peninsula and the Straits of Malacca and Notes on Ancient Times in Malaysia”; The Malaysian Branch of the Royal Asiatic Society by Art Printing Works Sdn. Bhd., Kuala Lumpur – 1980.
DOUGLAS, F.W. – “Notes on the Historical Geography of Malay and Sidelights on the Malay Annals”
MUZZI, G.A. – “The Portuguese in Malay Land”. Printed by Printmate Sdn. Bhd., Malaysia – 2002
PINTADO, Manuel Joaquin – “A Stroll Through Ancient Malacca”. Revised by D.P. Pereira, Gan Seng Printing (M) Sdn Bhd, Johor Bahru – 1980
ROTARY CLUB OF MALACCA – “Illustrated Historical Guide to Meleka”. Printed by Theng Yuen Chan Sdn. Bhd., Melaka – 1973
RYAN, N.J. – “A History of Malaysia and Singapore”, Oxford University Press, Kuala Lumpur – 1976