Etapa 2 – Relatório 6

15.OUT.2002

Ola amigos, acabei de atravessar a ilha de Java na Indonésia. Depois de visitar o templo de Borubudur em Yogiakarta atravessei as montanhas no meio da ilha, cheguei na capital Jacarta e peguei um navio para Malásia. Toda a ilha possui uma característica comum: é extremamente povoada. Não encontrei nenhum lugar inabitado. Existem poucos prédios e as casas estão distribuídas por todos os lugares. As áreas onde não existem casas são na maioria utilizadas para plantações de arroz.

Trabalho nas plantações de arroz

Quase não existe criação de gado. As carnes consumidas são principalmente de frango e peixe. São servidas nos restaurantes tradicionais – tendas na beira da rua com fogões improvisados e mesas na calçada. Estes restaurantes cumprem o papel social das praças que praticamente não existem. Fui em vários deles, sempre obedecendo a tradição de comer com a mão, lembrando de usar sempre a mão direita pois a esquerda é falta de respeito (ela é usada para substituir o papel higiênico!). Várias comidas são cozidas embrulhadas em folha de bananeira. Para comer basta desembrulhar e comer diretamente na folha. Tudo com muito arroz e pimenta.

Em Yogiakarta visitei o Templo de Borubudur, um dos maiores e mais antigos templos budistas da Ásia. Ele foi todo construído com pedras vulcânicas, fica no alto de um morro e no meio de um vale com uma visão fantástica. A subida para o topo do templo passa por vários patamares que possuem centenas de pequenas esculturas minuciosamente detalhadas. O último patamar é circular e tem vista para as montanhas que cercam o vale. No topo estão várias construções de pedra em forma de sinos com esculturas budistas dentro. Hoje o templo é o principal ponto turístico de toda a ilha de Java. Além dos templos, Yogiakarta possui também o palácio de Kraton, muitas artes e artistas, o que dá um ar especial para a cidade.

Templo de Borubudur

Na estrada a loucura no trânsito seguiu igual. Entre Yogiakarta e Jakarta eu tentei desviar da estrada principal passando pelas montanhas mas mesmo assim não tive sossego. Os ônibus quase me enlouqueceram. Não existe ponto de parada e eles freiam em todos lugares o tempo todo. Cortam as bicicletas sem nenhum remorso e é preciso ter cuidado dobrado para não atropelar os cobradores que sempre saltam da porta para chamarem os clientes na calçada. Nunca se sabe se será possível ultrapassar ou não pois eles nunca param de verdade. Os passageiros sobem e descem com o carro em movimento. Vários ônibus eram velhos e jogavam fumaça preta na minha cara quando aceleravam. Não adiantava fazer nada. O melhor era ter paciência e ficar dando “thauzinho” para os passageiros que ficava sempre sorrindo.

De Yogiakarta passei por Kebumen, Jatilawang, Ciamis e cheguei em Bandung, no alto do morro, a quarta maior cidade da Indonésia. É uma região com indústrias têxteis, de telecomunicação, chá e processamento de alimentos. Na descida para Jakarta passei por Purwakarta e assisti aos desfiles do “carnaval indonésio”.
O “carnaval” daqui é um desfile comportado mostrando as roupas e músicas típicas locais.

Carnaval indonésio

O país é muito seguro e há tempos não escuto sirenes e confusões nas ruas. O indonésio é muito amigável e sorri o tempo todo. Eles possuem alguns costumes interessantes. Tomam banho de balde – os banheiros possuem sempre um compartimento para armazenar a água e um baldinho do lado. Em vários lugares só se pode entrar descalço. Isso independe do tipo de lugar que pode ser um hotel, um templo, uma casa ou até mesmo um cyber café.

A colonização Holandesa deixou poucas marcas no país. Não vi nenhuma expressão cultural holandesa. Não teve miscigenação e, com exceção de Surabaya, Bandung e Jacarta, quase não vi arquitetura com traços europeus.

Existem mesquitas (templos muçulmanos) em toda a ilha. De hora em hora seus alto-falantes chamam os fiéis para orar. O som parece um choro, uma música profunda que toma conta de todo o ambiente. Até mesmo para não muçulmanos o momento se torna sagrado e parece que todas pessoas se transformam em respeito
à Alá.

A paisagem da estrada foi mudando aos poucos até chegar em Jakarta (ex Batávia), quando as pequenas casas deram lugar para um emaranhado de prédios e imensas avenidas suspensas. A capital da Indonésia é uma das maiores e mais poluídas cidades do mundo. Foi outro importante porto da Cia Holandesa das Índias Orientais e hoje é mais uma das problemáticas megacidades.

Nos anos 50 apenas Nova York era uma megacidade (como são chamadas as cidades com mais de 10 milhões de habitantes) e hoje há mais de 20 delas espalhadas pelo mundo. Todas possuem sérios problemas de sustentabilidade, principalmente com relação à água. Em Jakarta o esgoto não é encanado, ele corre em valas abertas paralelas às calçadas. Em alguns casos o esgoto se parece com um rio e é utilizado para tudo – lavar roupa, nadar e até pescar. Em alguns lugares existem blocos de concreto para tampar as valas mas sempre existe um bloco quebrado ou alguma fresta que serve de porta para os ratos e baratas que infestam toda a cidade.

Na capital fiz uma palestra no Seminário Internacional da Cultura que coincidentemente estava ocorrendo na mesma data. Logo quando cheguei passei um pouco mal com a comida. No dia seguinte fiz a palestra e saí correndo para o hotel. Fiquei de cama dois dias até me curar e depois fui visitar a imensa cidade.

Muitos prédios seguem o estilo arquitetônico da vizinha rica Singapura. Imensas torres envidraçadas com o ar condicionado ligado todo o tempo para aliviar o terrível calor da rua. Os mais luxuosos são em geral hotéis, bancos ou empresas de petróleo.

Jacarta - capital da Indonésia

De toda a ilha foi somente na Embaixada do Brasil que encontrei brasileiros. A pequena comunidade verde e amarela estava naquela semana organizando um bazar beneficente que orgulhosamente coloca o Brasil na lista dos cinco países que mais arrecadam fundos para as instituições de caridade da Indonésia. Parabéns para os conterrâneos!

A viagem de bicicleta tem me ensinado vários macetes curiosos. Depois de mais de cinquenta furos de pneu comprei na Austrália uma faixa de kevlar que coloquei entre o pneu e a câmara e nunca mais tive um furo. Este mês aprendi o que foi até então meu melhor remédio para dor de barriga: carvão ativado em pastilhas. Achei a idéia interessante e resolvi experimentar. Natural e sem nenhuma contra-indicação o carvão ativado funciona como um filtro e absorve as sujeiras internas. Faz sentido e funciona. Desde o Mato Grosso do Sul carrego um pequeno carimbo de bolso que substituiu o cartão pessoal – tem meu nome e o endereço do site. É muito prático! Nunca mais precisei imprimir cartões. Outro macete foi com os métodos para me enxugar. Comecei a viagem utilizando uma toalha de silicone. A idéia é boa pois ela não precisa secar – você pode guardá-la num pequena embalagem de plástico logo após o uso. Mas não enxuga direito e fica fedendo depois de algumas semanas. Então mudei para a fralda – dessas para bunda de neném. A idéia é boa também – leve, pequena e seca rápido. Mas fica encardida e não enxuga direito. Diante de tantas tentativas complicadas para algo tão simples resolvi ir num supermercado e comprar uma toalha normal. Finalmente encontrei a melhor solução para me enxugar.

A crise do dólar no Brasil me pegou em cheio. Tive de reduzir ainda mais o orçamento que já estava curto. Sigo buscando mais apoios para o projeto. A recessão econômica me fez tomar duas difíceis decisões. A primeira foi abandonar Singapura, o porto mais importante da Rota da Cia das Índias Orientais que é hoje um dos lugares mais caros do sudeste asiático. A outra decisão foi de ir na “quinta classe” do navio para Malásia.

O navio foi um suspense. Na agência de viagens todos me falavam para ir de avião. O preço era igual ao da primeira classe no navio e seria apenas uma hora de vôo ao invés das cinquenta horas no mar. Mas logo expliquei que dinheiro e pressa são as duas coisas que menos tenho no momento e me venderam a tal passagem. Me explicaram várias vezes que eu não teria direito a uma cadeira – era apenas um chão onde todo mundo dorme.

Entrei uma hora adiantado no navio para conseguir um bom lugar no “chão” e descobri que todos os 953 passageiros da “quinta classe” já estavam acomodados. O chão dos dois andares superiores já estavam ocupados e só me sobrou o terceiro andar subterrâneo (ou subaquático) para estender meu saco de dormir. Me arrumei em um canto e despenquei de sono nas primeiras cinco horas da viagem.

Quando acordei me dei conta do local. Não existia nenhuma ventilação. Milhares de baratas e todos comendo e jogando os restos de comida no “nosso lar”. De vez em quando se escutava uns escarros que eram lançados entre uma cama e outra. Urgh. Percebi então que ali não era um bom local para passar as próximas quarenta e tantas horas e resolvi procurar alguma solução.

Fui tentando conversar com os tripulantes até encontrar um que falava mais ou menos um inglês. Depois de algumas horas caminhando pelo navio cheguei finalmente na cabina de comando. Fiquei impressionado com o tratamento que me deram. O navio tinha poucos turistas e acho que eles nunca tinham visto um brasileiro. Ficaram na maior alegria. Futebol, samba, papo vem, papo vai e logo o comandante me arrumou um lugar com ar condicionado e trocou meu carnê de alimentação por um de primeira classe. Que maravilha! Foram dois dias comendo do bom e do melhor e dormindo confortável e tranquilamente.

O navio é um pouco entediante e com o “passe livre” eu sempre fazia umas caminhadas para conhecer as habitações. O navio é incrivelmente grande. No total éramos 1230 pessoas em seis andares. De vez em quando ia visitar os companheiros no “porão” e aproveitava para conferir a bicicleta que tinha ficado por lá.

A viagem foi numa quinta e sexta-feira. A sexta-feira é especial para o muçulmano e todos rezam com mais frequência. No último andar do navio tem uma mesquita de uns 80m2 onde os muçulmanos se revezavam para rezar. É costume rezarem com o corpo voltado para a cidade de Meca. Para caberem mais pessoas no templo, o navio mudava a rota para ficar ortogonal à direção da reza.

Na viagem atravessamos a Linha do Equador e fiz a marinheira oferenda para Netuno. Navegamos mais um pouco e chegamos em Kijang, uma ilha indonésia perto de Singapura, região que foi utilizada de refúgio para os vietnamitas durante a Guerra do Vietnã. De Kijang pedalei até o outro porto onde peguei um ferry para Johor Baharu, na Malásia. O ferry passou pelo Estreito de Singapura e pude ter uma noção da potência econômica de Singapura apenas com o congestionamento de cargueiros em torno da ilha.

Esta última etapa foi até então a mais “pedalada” de todas. Percorri de bicicleta mais de 1500 km em um mês. Agora estou na Malásia. Um país fantástico – desenvolvido e cheio de histórias interessantes.

Um grande abraço,
Argus
Obrigado Embaixada do Brasil na Indonésia pela organização da palestra e divulgação do projeto em Jakarta.

Errata: No último relatório escrevi “os táxi-bicicletas” e o correto seria escrever “os táxis-bicicletas”. Obrigado professora Edna dos Santos lá do Maranhão que está atenta no texto e ajudando o projeto!

Para saber mais
www.geocities.com/bali_info_4u
www.budar.go.id
www.nafed.go.id
www.prica.org/indonesia/general/history.html
www.countryreports.org/history/indonhist.htm
coombs.anu.edu.au/WWWVLPages/IndonPages/Culture.html
www.heiferindonesia.org/program/history.htm
www.nationbynation.com/Indonesia/History1.html
news.bbc.co.uk/1/hi/world/americas/1461859.stm
www.asianinfo.org/asianinfo/indonesia/pro-history.htm
www.photius.com/wfb/wfb1999/indonesia/ indonesia_geography.html
www.thejakartapost.com