Etapa 2 – Relatório 5

19.SET.2002

Ola amigos, agora estou na Indonésia. Passei por Bali e estou atravessando a ilha de Java de leste a oeste. Passei pelo importante porto de Surabaya e agora estou no meio da ilha, em Yogiakarta.

No Séc. XVI a Indonésia teve alguns entrepostos comerciais portugueses e no Séc. XVII o país se tornou colônia da Companhia Holandesa das Índias Orientais. A Holanda utilizava os importantes portos de Surabaya e Jacarta para fazer suas transações comercias marítimas. Nessa época foi construída uma linha de trem, com mão de obra escrava indonésia, atravessando a ilha de Java e ligando os dois portos. Parte do meu percurso é paralelo a esta linha de trem.

Na Segunda Guerra Mundial o Japão ocupou a ilha por três anos e meio. Os indonésios conseguiram a independência em 1945 e Sukarno se tornou presidente. Em 1966 os militares retiraram Sukarno do poder que foi passado para o general Suharto em 1968. O final da década de 90 foi bastante conturbada para a Indonésia. Além da crise financeira geral dos tigres asiáticos o General Suharto estava com um governo muito instável, decorrente do seu estado de saúde e denúncias de corrupção e violação de direitos humanos. Em 1998 a ditadura terminou e hoje o país é uma República pluripartidarista sob o governo da presidenta Megawati Sukarnoputri, filha de Sukarno – uma boa surpresa ver uma mulher governando um país de maioria muçulmana.

Os tigres asiáticos são países que tiveram um grande desenvolvimento industrial entre as décadas de 60 e 80. Dentre os tigres asiáticos se destacam a Indonésia, Tailândia, Malásia, Filipinas, Cingapura, Taiwan (Formosa) e Coréia do Sul. O grande desenvolvimento gerou especulação na bolsa de valores e crise financeira a partir de 1997, quando ocorreu uma grande desvalorização das moedas. Em quase todos os países o governo deu forte ênfase no ensino básico gerando uma mão de obra qualificada e barata, um dos motivos da grande expansão das indústrias de eletrônicos, vestuário e computadores.

O país é o maior arquipélago do mundo. Ainda não descobri o número oficial de ilhas que possui. Encontrei um lugar que fala 13, outro 17 e outro 25 mil. (?) O indonésio é a língua oficial mas o país possui mais de 300 dialetos. É o quarto país mais populoso do mundo! O país possui mais habitantes que o Brasil. São mais de 225 milhões de pessoas!

O indonésio é um povo calmo e sorridente. Pequeno fisicamente, o que me faz comer geralmente duas a três vezes o que é considerado um prato para eles. São todos muito nacionalistas e é difícil encontrar algum lugar que não tenha a bandeira indonésia.

Grande parte da população vive em extrema pobreza, apesar da diferença social ser relativamente pequena. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) constatou que hoje no mundo existem 246 milhões de crianças e uma de cada seis crianças entre 5 e 17 anos estão trabalhando – 60% dessas crianças estão na região do sudeste asiático.

O país vive principalmente de petróleo, gás, estanho, componentes eletrônicos, madeira e têxteis. Também existem muitas plantações de arroz para consumo local, tanto nas áreas planas quanto nas montanhosas.

Plantações de arroz nas montanhas

É um país quente. A temperatura média anual é de 26 graus (Agora em Jacarta a temperatura está variando entre 26 e 31 graus). Estou passando durante a época seca e não peguei nenhuma chuva mas costuma chover muito entre novembro e março (em janeiro chove 340 mm em Jacarta). Várias montanhas são vulcões e o ponto mais alto é o monte Agung, com 3,142 m.

Minha preocupação com dengue e malária é constante. A forma que encontrei para me prevenir é não me deixar ser picado por nenhum inseto. O que não é fácil pois todos lugares têm muito pernilongo. Em geral passo um forte repelente no corpo e quando possível iseticida onde vou dormir. Não faz muito bem para saúde mas seguramente é melhor do que ficar doente.

Apresentação de grupos de música e dança indonésios

Bali é a ilha mais turística de todo arquipélago. Vários textos falam que o local perdeu o charme com a grande expansão do turismo das últimas décadas mas ainda assim achei muito interessante. A ilha pode ser dividida entre Kuta e as outras cidades. Kuta é o centro onde estão quase todos os hotéis, restaurantes e lojas. Aí é preciso ter muita paciência com os vendedores que, de minuto em minuto, aparecem oferecendo maconha, extasy, massagem, mulher, transporte, etc.

A ilha é um centro de hiduísmo num país de maioria muçulmana. Hinduísmo é a terceira maior religião em número de adeptos no mundo. Dentre seus preceitos básicos, os Vedas, estão o politeísmo e a crença na reencarnação. A sociedade é dividida por castas o que gera uma diferença social histórica e praticamente imutável.

Esquecendo os vendedores e o movimento dos turistas ainda é possível imaginar uma vila hinduísta muito mais tranquila há anos atrás. A arquitetura dos templos é bastante trabalhada e colorida. Nas vielas que compõem a cidade vê-se sempre os altares de devoção dentro das casas e a população fazendo diariamente os rituais com incensos, flores e oferendas. Outro costume interessante é de soltar papagaios (pipas). Eles são especialistas e fazem alguns imensos. O céu de Bali fica sempre cheio deles com tamanhos, formatos e cores para todos os gostos.

A praia de Kuta é uma mistura interessante do turismo ocidental, população local e vizinhos muçulmanos. Num mesmo dia é possível ver as ocidentais de topless, as muçulmanas entrando na água com roupa em todo o corpo e uma cerimônia hinduísta.

Celebração hinduísta na praia de Kuta

A ilha é também um paraíso para o surfe. Até eu tentei aprender! São milhares de surfistas que visitam o arquipélago para poderem surfar nas “ondas perfeitas” da Indonésia. Aproveitei o reencontro dos amigos do veleiro que sabiam surfar para me darem umas aulas. No final passei mais tempo embaixo d’água nas “vacas” que em cima da prancha. Mas valeu a pena.

Fiz alguns tours pela ilha. De bicicleta fui para Nusa Dua e Dreamland e de carro fui para Ubud junto com a turma do veleiro. Ubud tem um dos templos mais famosos de Bali onde também é possível ver milhares de macacos. Inclusive toda a ilha é cheia deles. Nas estradas é muito fácil vê-los.

De Bali fui para a ilha de Java, próxima ilha a oeste, atravessando de ferry um pequeno estreito de três quilômetros.
Na estrada percebe-se bem a quantidade de gente que existe no país. Várias estradas parecem mais uma avenida no centro de uma cidade movimentada. Você só sabe que mudou de cidade se perguntar ou entender as placas. Está tudo ocupado e não sobrou lugar para nada.

Além da densidade de casas também impressiona o número de motos, carros e caminhões nas estradas. É muita fumaça e barulho. A poluição da atmosfera é terrível, vários usam pano na cara para diminuírem a sujeira nos pulmões.

As estradas não possuem acostamento, faixas, sinalização, nada! Uma áurea de proteção faz com que ninguém seja atropelado. Mão e contramão não existem. Aqui vale tudo. Os caminhões já estão acostumados com bicicletas e motos no meio do caminho. Alguns tipos de buzinas possuem significados que eu estou aprendendo: umas falam que um carro vai me passar, outras que o caminhão possui duas cargas, outras são para eu me jogar para fora pois não vamos caber juntos na pista e outras, mais escandalosas, são somente para me gritarem “Hello Mister”, “Brasil! Good!” ou “Ronaldo!”.

Talvez a calma do povo indonésio seja a fórmula para conseguirem viver com tanta gente no meio desse caos.

A principal mudança de uma ilha para a outra foi a religião. Passei de uma ilha hinduísta para uma muçulmana (islamismo) que é a religião predominante no país. O islamismo é a segunda maior religião em número de adeptos no mundo, perdendo apenas para o cristianismo. Respeita o Alcorão, o livro sagrado islâmico, e baseia-se na devoção e obediência à Alá, o Deus árabe. Dois dos preceitos básicos do Alcorão são a generosidade e a justiça entre as pessoas. Todos se ajudam bastante e por isso existe pouca diferença social. É difícil ver miseráveis nas pequenas cidades. Quase todos possuem comida e lugar para dormir, mesmo que seja de baixíssima qualidade.

Estou tentando pedalar somente por partes planas da ilha. Passei por Banyuwangi, Situbondo, Probolinggo e cheguei em Surabaya, todas com mais de 500 mil habitantes.

No Séc. XVI Surabaya era a maior e mais desenvolvida cidade do arquipélago. Hoje é a segunda maior, perdendo apenas para a capital Jacarta. Em Surabaya ocorreu um dos mais significativos movimentos da independência indonésia. Em 1945, após a independência do país pelos japoneses, os holandeses hastearam sua bandeira no hotel Majapahit, no centro da cidade. Meia hora depois, vários jovens gritando “Merdeka” (liberdade) subiram no telhado do hotel e rasgaram a faixa azul da bandeira holandesa, ficando somente as cores vermelha e branca da bandeira indonésia.

Surabaya possui 4 milhões de habitantes. Reflete um crescimento desordenado e uma estrutura ambiental insustentável. Os rios estão poluídos e existe lixo por todo lado. O ar que já era poluído na estrada se transformou em uma mancha negra na cidade. O trânsito é caótico. Existem avenidas que demorei mais de 10 minutos para atravessar. Quase não existem sinais de trânsito e alguns lugares, para atravessar, as pessoas se lançam no meio da rua e os carros vão desviando.

Rua de Surabaya

Além das motos existem muitos táxi-bicicletas, bicicletas com um banco adaptado na frente para o cliente. Experimentei atravessar a cidade em um deles. Os táxi-bicicletas não precisam respeitar os sinais. E realmente não respeitam. Andam na contramão quase todo o tempo e passam muito perto dos ônibus e carros. É muito mais adrenalina que qualquer montanha russa!

De Surabaya passei por Jombang, Madiun, Surakarta, atravessei várias plantações de arroz e fumo, bebi muito coco e chá gelado, comi muita manga, vi muita gente e cheguei em Yogiakarta. E daqui estou enviando este email. Uma cidade com uma energia muito boa e vários templos. Ontem visitei o templo de Prambanan que tem 900 anos. Diferente dos templos hindus de Bali esse não possui desenhos e cores., é todo em pedra esculpida, cor natural e incrivelmente maior que todos outros que já havia visto.

Templo de Prambanan

Por internet acompanhei a cúpula mundial para o meio ambiente que ocorreu último mês em Johanesburgo, a Rio +10. Infelizmente a cúpula foi um fracasso. Poucas questões foram colocadas em prática com objetivos e metas. Resoluções para o aquecimento global seguem a lesma lerda. Não foi definida nenhuma atuação eficaz para o problema. Ao contrário, as propostas mais emergenciais foram vetadas em detrimento de ambições capitalistas (mais uma vez…).

“Na questão da energia, um dos principais pontos de impasse da cúpula, os EUA -maior consumidor de petróleo e derivados do planeta- se aliaram a alguns países árabes para derrotar iniciativas do Brasil e da União Européia, que queriam metas para ampliar a participação das fontes renováveis na matriz global.”
Site da Folha de São Paulo, agosto de 2002

Eduardo Galleano escreveu em entrevista ao jornal espanhol El Mundo no último agosto: “Bush anunció que los Estados Unidos aumentarán en un 43 por ciento, en los próximos dieciocho años, la emisión de los gases que intoxican la atmósfera … preside um país de máquinas que rodam comendo petróleo e vomitando veneno.” e lembrou que nos anos 90 se produziram “86 catástrofes” naturais que deixaram “cinco vezes mais mortos do que as guerras” nesse período.

Para os ambientalistas presentes não sobrou mais o que fazer além de vaiar o representante americano, Colin Powel, no encerramento da cúpula. E para mim também sobrou pouco a fazer além de escrever e tentar conscientizar algum desatento que ainda não tinha conhecimento dessas notícias.

Aqui em em Yogiakarta visitarei o templo budista de Borobudur e logo sigo para Jacarta.

Um abraço e até a próxima,
Argus

“O construir e o fazer arquitetura é para os fortes de espírito. Esta é a razão pela qual nos primórdios da civilização os povos construíam para os deuses, que definiam os destinos da humanidade.”
Arquiteto, Professor e Amigo Eolo Maia (1942 – 2002)
Obrigado por tudo que nos ensinou.

Para saber mais
Livro
Battle of Surabaya, s.l. : Public Relations Bureau East Java Province, 1993. Page 11-13.