Etapa 2 – Relatório 11

30.JAN.2003

Olá amigos, atravessamos Camboja. Começamos pedalando pelas montanhas do sudoeste do país e depois pedalamos pela grande planície do vale do rio Mekong. Visitamos na capital Phnom Penh os resquícios da terrível história do Khmer Vermelho e depois, em Siem Reap, as incríveis ruínas de Angkor Wat. Agora estamos pedalando para a fronteira com a Tailândia.

Começamos nossa viagem em Camboja comendo poeira numa estrada de terra do inóspito sudoeste do país. O sol forte e as montanhas dificultaram a viagem mas a alegria dos cambojanos compensava. As vilas dessa região são apenas aglomerados de casas que se concentram na beira dos rios. A estrada ainda não possui pontes e todas travessias são feitas de balsa.

A primeira parada foi em Tha Tai, uma cidade que não existe no mapa e nem mesmo nós sabíamos que existia. A pequena vila não possui guest house e resolvemos montar a barraca na beira do rio. A barraca chamou atenção e logo estávamos acompanhados de toda criançada da vila. Um professor também acompanhou a montagem e depois nos convidou para usar o banho da sua casa. Logo percebemos que em Camboja existe um sorriso muito sincero e que as pessoas sofreram muito nos últimos anos e aprenderam a se ajudar.

Nos outros dias encontramos guest houses. Seguimos pedalando para o leste e aos poucos as montanhas do sudoeste de Camboja foram desaparecendo. Pedalamos atentos pois lemos que ainda existem membros do Khmer Vermelho que vivem escondidos nessa área mas não vimos ou escutamos falar de nenhum problema. Com exceção dessas montanhas o país é praticamente plano e faz parte do grande vale do rio Mekong.

sri_ambel_camboja.jpg

Chegamos em Sihanoukville, uma cidade de praia que é também o porto mais importante do país. Passamos dois dias um pouco decepcionados com as praias que esperávamos serem desertas e quase não encontramos lugar para caminhar por causa da grande quantidade de turistas locais.

Um pouco da história de Camboja:

O país se tornou colônia francesa em 1863, foi dominada pelos japoneses durante a II Guerra Mundial e conseguiu a independência em 1953.

O maior terror em Camboja começou com o bombardeio norte-americano durante a Guerra Secreta de Nixon e Kissinger. Camboja, assim como Laos, foi bombardeada pelos americanos para evitar que o país ajudasse o comunismo no Vietnã. 550.000 toneladas de bombas foram despejadas em Camboja – um total de explosivos que possui 25 vezes a força da bomba de Hiroshima! Um bombardeio que o próprio Kissinger admitiu ter sido um erro. Até hoje nascem pessoas com problemas de deformação genética por causa dos desfolhantes usados durante essa guerra.

Depois veio o Khmer Vermelho (Khmer Rouge). Entre 1975 e 1979 Camboja viveu sob um terrível regime de comunismo ultra-maoista liderado por Pol Pot. Durante esse período o dinheiro, a propriedade privada, a escola e a religião foram abolidos e os habitantes das cidades foram obrigados a se retirarem para o campo. Aproximadamente 1,7 milhão de cambojanos morreram – muitos por exaustão nos trabalhos forçados e muitos por tortura e execução por serem considerados inimigos do estado.

O governo instaurou o “Camboja ano zero”. Milhares de pessoas que sabiam ler e escrever foram torturadas e executadas e crianças foram estimuladas a matarem os próprios pais que soubessem ler. Segundo o regime, as pessoas instruídas eram “inimigas do estado”.

Quando todos líderes do mundo pareciam ter aprendido com o erro de Hitler na Alemanha apareceu um outro louco que conseguiu fazer pior.

A imaginação de toda essa brutalidade ficou um pouco mais real quando visitamos o “Setor 21″, ex-escola de Phnom Penh que foi transformada em presídio com salas de tortura e execução dos “traidores”. Hoje o local é aberto à visitação e mantém vários instrumentos que foram utilizados para tortura. Não existem palavras para descrever o horror que foi o Khmer Vermelho.

s21_phnom_penh_camboja

Em 1979 o Khmer Vermelho foi retirado do poder com a invasão das tropas do Vietnã que abandonaram o país em 1989 quando o país começou a ser governado pela Autoridade Transitória da ONU. Em 1993 o partido de Norodon Sihanouk, atual rei de Camboja, venceu as eleições e instaurou a monarquia parlamentarista que existe até hoje.

Durante nossas pedaladas pelo país foram comemorados 24 anos do fim do Khmer Vermelho e até hoje o atual governo e a ONU não formaram uma corte para apurar os responsáveis do genocídio.

A capital Phnom Penh possui 1 milhão dos 14 milhões de habitantes de Camboja. A cidade é banhada pelo rio Mekong e na rua que beira o rio estão o Palácio Real e vários templos de budismo que é a principal religião do país. O trânsito é infernal. Existem milhares de motos-táxis que quase imploram para conseguir um cliente e miseráveis pedindo dinheiro por todos os cantos. A capital é o reflexo de um país desordenado que está tentando se restabelecer do longo período de guerra e corrupção que destruiu toda sua infra-estrutura.

“This is a society that’s been trough hundreds of years of agrarian feudalism, twenty-three years of civil war, ten years of Communism and isolation, ten years of foreign occupation, and then the world just flipped a switch and turned Cambodia inte this democratic, capitalistic, open, developing country. You think there might be some tension created ?”

Frase de uma jornalista retirada do livro Off the rails in Phnom Penh de Amit Gilboa.

O país depende de ajuda internacional para suportar suas necessidades básicas. A área da educação é lastimável. Sem uma geração de pais educados, as crianças não possuem referência e base familiar para desenvolverem a capacidade de aprender. A área da saúde é caótica. O país possui um orçamento para saúde de apenas 1,5 US$ habitante/ano, paga o salário de 20 US$/mês para um médico e a maioria dos hospitais nem sequer possui água encanada.

Existe uma minoria de cambojanos que realmente surpreende. Ficamos admirados com a força de vontade que esses possuem em aprender. Muitas vezes fomos emparelhados na estrada por bicicletas com estudantes que nos seguiram por vários quilômetros para treinarem um pouco de inglês.

Depois de Phnom Penh fomos para Skun. Antes de encontrarmos uma guest house um estudante de inglês nos convidou para conhecermos sua “escola-casa”. No local vivem 67 alunos que estudam inglês por 6 meses e durante período limpam os quartos, lavam roupas, consertam de tudo, cozinham e aprendem muito. Os professores são ex-alunos voluntários e todo o instituto é mantido (inclusive o aluguel da casa e alimento) com 35 US$ doados por uma empresa da Malásia. A necessidade de aprenderem, a noção de equipe e a determinação fazem esse dinheiro multiplicar. Os professores não possuem nenhum material didático para aperfeiçoarem o inglês e literalmente “catam” turistas na cidade para treinarem. Ficamos maravilhados com o projeto e, “papo vem papo vai”, acabamos dormindo na casa.

Na estrada vimos o reflexo de uma vida rural simples. Grande parte de seu povo (75%) vive da agricultura de subsistência plantando principalmente arroz no vale do rio Mekong. No dia a dia comem sopa de macarrão pela manhã e no almoço arroz acompanhado com vegetais, carne de galinha, porco, vaca, ou alguma das várias comidas “exóticas” como aranhas, formigas, cobras, escorpiões, besouros, cigarras, cérebros, lesmas, etc.

aranha frita - Camboja

O transporte nas estradas é curioso. Vimos muitos carros de boi, motos e caminhonetes carregando de tudo. Várias motos carregam centenas de galinhas penduradas, porcos em cestas de bambu e muitas vezes possuem carroçaria onde levam dezenas de pessoas amontoadas. As caminhonetes desafiam a gravidade empilhando até seis metros de sacos e bagagens de todo tipo e para completar o malabarismo colocam pessoas no topo. Existem também carros que carregam porcos, geralmente fazem umas cinco camadas de porcos amarrados ainda vivos e colocam até 50 deles em um único veículo. Esses carros com porcos param de tempo em tempo perto de um rio e o motorista fica jogando baldadas de água para os animais não morrerem.

As pequenas cidades são espalhadas pela beira da estrada e praticamente não encontramos um quilômetro que não existissem casas. Várias cidades não possuem um centro propriamente dito, existe apenas uma área da estrada onde se concentra o comércio. Essas “cidades-estradas” perdem a identidade de uma comunidade. O fato de não possuírem um centro para a convivência, esporte e diversão gera a falta de expressão cultural, falta de música, falta de poesia e a falta do prazer que existe em viver em um ambiente saudável. Os únicos ambientes de encontro dessas cidades são os karaokês que são a grande diversão da população.

Em todo percurso encontramos várias pessoas que se tornaram deficientes físicas por causa das minas que estão espalhadas pelo país. Camboja divide com Angola e Afeganistão o titulo inglório de país mais minado do mundo. Cerca de 46% das aldeias do país possuem zonas afetadas pelas minas. Durante o Khmer Vermelho as florestas e estradas foram minadas para evitar que os habitantes fugissem do país. Tivemos o cuidado em usar somente estradas autorizadas pelo governo e nunca caminhar pela beira da estrada em locais desconhecidos.

placa avisando sobre minas - Camboja

A poeira da estrada seguiu castigando e acabei ficando três dias de cama por causa de uma sinusite. A reza para não piorar foi grande. Parar em um hospital em Camboja não seria nada agradável. Felizmente a sinusite veio em Kampong Thon, uma cidade com luz, água encanada e hotel limpo. Mais ou menos sarado seguimos viagem para Siem Reap.

Siem Reap é a cidade mais visitada do país por ser a base para conhecer os templos de Angkor. Quase todas instituições internacionais de apoio à Camboja possuem centrais ali e a cidade concentra a melhor infra-estrutura do país. É uma cidade para “inglês ver” onde fomos inacreditavelmente parados por um policial por estarmos de bicicleta na contra mão de uma de suas pacatas ruas.

Durante três dias pedalamos mais de 150 km no Sítio Arqueológico de Angkor e mesmo assim deixamos muitos lugares sem visitar. As construções são os resquícios de uma cidade que foi a capital do Império Khmer e ficou por vários anos esquecida e coberta pela vegetação. Hoje todo sítio é considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco e está sendo vagarosamente restaurado.

Em várias ruínas existem pedras esculpidas soltas e espalhadas pelo chão. Muitas árvores e plantas cresceram dentro dos templos e ainda é possível ter a sensação de “exploradores” em alguns locais pouco visitadas.

Angkor foi a capital do Império Khmer entre os séculos VIII e XV. O antigo Império ocupava a região dos atuais Laos, Tailândia e Camboja e possuiu dois períodos religiosos, um período Hindu e outro Budista. Em seu apogeu chegou a ter uma população com mais de um milhão de habitantes e aproximadamente 100 templos. Em 1460 a capital foi transferida para Phnom Penh e Angkor ficou praticamente abandonada até o Séc. XX.

O Império era baseado na agricultura e ficou famoso por suas tecnologias de irrigação que tornaram possível quatro colheitas de arroz por ano enquanto normalmente seria possível somente uma. A superfície da região é totalmente plana e todos templos foram construídos ortogonalmente e direcionados pelo sol. A água e a pedra eram considerados sagrados e foram os elementos base da arquitetura de Angkor.

Eu em angkor Thom - Camboja

Em Siem Reap conhecemos um dos projetos mais louváveis de apoio à Camboja. O projeto Beatocello – The Kantha Bopha Foundation – dirigido pelo Dr. Beat Richner, um médico suíço coordenador de três hospitais que atendem gratuitamente 800 crianças por dia. Além de médico ele também é músico e todos sábados faz uma apresentação tocando celo, falando sobre o desafio do seu projeto e angariando fundos para manter os hospitais. Ele não mede palavras para criticar os órgãos internacionais que gerenciam as verbas para a saúde no terceiro mundo. Descreve a política da World Health Organization como “poor medical care for poor people in poor countries” e apresenta exemplos que deixam às claras a hipocrisia do primeiro mundo com relação aos países desfavorecidos.

Entre outros exemplos, em seu livro Kantha Bopha – A children’s doctor in Cambodia ele cita uma companhia farmacêutica francesa que vende remédios danosos para Camboja. Esses remédios (chloramphenicol) já foram banidos em todo o mundo por serem prejudiciais à saúde e, mesmo sabendo disso, os franceses seguem fazendo dinheiro às custas da venda desses medicamentos.

De Siem Reap estamos seguindo para Bangkok, capital da Tailândia, onde pegarei a nova bicicleta e seguiremos para a terceira etapa da viagem – A Rota da Seda!

Grande abraço,
Argus

Para saber mais

Sites
Land Mine Museum
www.landmine-museum.com
http://peace.s9.xrea.com
Campaign for a Land Mine Free World
www.vvaf.org
The Cambodiaa Genocide Program
www.yale.edu/cgp/
The Documentation Center of Cambodia
www.bigpond.com.kh/users/dccam.genocide
Angkor Wat Oficial Web Site
www.autoriteapsara.org
Kantha Bopha Foundation – Dr. Beat Richner
www.beatocello.com
www.beat-richner.ch

Livros
Hildebrand, George C. Cambodia: Starvation and Revolution. New York: Monthly Review Press, 1990.
Kiernan, Ben. How Pol Pot Came to Power: A Hitory of Communism in Kampuchea, 1930-1975. London: Verso, 1985.
Shawcross, William. Sideshow: Kissinger, Nixon and the Destruction of Cambodia. New York: Chato and Windus, 1979.
Szymusiak, Molyda. The Stones Cry Out: A Cambodian Childhood, 1975-1980. New York: Hill and Wang, 1986.
Ung, Loung. First They Killed My Father – A Daughter of Cambodia Remembers. New York: Perennial, 2000.
Vickery, Michael. Cambodia 1975-1982. Boston: South End Press, 1984.