Etapa 2 – Relatório 10

23.JAN.2003

Olá amigos! Acabamos de atravessar Laos. Das montanhas de Udom Xai seguimos para o sul até encontrar novamente o rio Mekong na capital Vientiane. Depois passamos novamente pela Tailândia (Natal e Ano Novo) e agora estamos começando a rota pelo interessante Camboja.

De Luang Prabang seguimos pela estrada que liga a China e o norte do Vietnã à capital de Laos. Apesar da importância da estrada a sua qualidade não mudou muito. Seguimos sem muitas regalias de hotéis ou restaurantes, comendo e dormindo em locais muito simples.

A rota Luang Prabang – Vientiane foi publicada no famoso guia de viagem Lonely Planet em um livro especial para ciclistas. Essa rota foi onde encontrei a maior concentração de ciclistas durante toda a viagem. Chegamos a encontrar mais de 30 num mesmo dia! É impressionante como os guias de viagem modificam o turismo, tanto para ciclistas como para “mochileiros”. O Lonely Planet é o guia mais conhecido e é utilizado praticamente como uma bíblia. Seguindo as dicas desses guias, a grande maioria dos turistas visita somente três cidades em Laos – Luang Prabang, Vang Vieng e Vientiane – o que é uma pena pois perdem a grande beleza do país que está nas pequenas aldeias entre as cidades.

Laos foi fechado para o turismo até poucos anos atrás. A abertura veio com a necessidade do dinheiro trazido por essa indústria. No entanto a interferência cultural é explícita. A cultura milenar desses povos pode (e vai) se transformar em poucos anos. Para evitar que as mulheres tomem o mesmo caminho de prostituição da vizinha Tailândia, o governo proíbe o relacionamento sexual com estrangeiros – se a mulher for flagrada com um turista ela é presa.

Ritual para escolha do marido e mulher nas tribos Hmong

É difícil falar sobre os problemas causados pelos turismo pois de alguma forma também faço parte dessa destruição. Seja de bicicleta, mochila, avião, a pé ou a cavalo seremos sempre uma referência de um mundo diferente para essas delicadas culturas. O importante é ter consciência dessa interferência e fazer disso uma forma de melhorar ou não modificar a vida nessas comunidades – e seguramente droga e prostituição não são as melhores interferências.

Geralmente a vida nas montanhas é muito mais difícil e pobre que na planície, onde a agricultura é mais fácil. As montanhas são a região dos laboratórios de heroína controlados pelas tribos Hmong. Logicamente o turismo é mal vindo e uma câmara fotográfica pode ser motivo de muito problema. Percebemos ali um ambiente estranho e até as crianças que sempre nos cumprimentam nos olhavam em silêncio. As tribos das montanhas que não cultivam ópio vivem na miséria e muitos fazem do desmatamento sua única fonte de renda.

Casa nas montanhas

“The minorities are becoming increasingly marginalized in the economic field. They live in the areas that are the least affected by foreign aid and investments and new job opportunities. The most important problem is the conflict over the use of forests. Several provinces, and possibly the army as well, depend on income from the export of timber.”

The Quest for Balance in a Changing Laos – Nordic Institute of Asian Studies (1995)

Pho Khoun - vila nas montanhas

De Luang Prabang saímos da beira do rio Mekong e fomos atravessar as últimas montanhas do norte de Laos (Kiu Kachan, Phou Khoun e Kasi) com paisagens fantásticas. Depois descemos para Vang Vieng e voltamos para o calor da planície no sul do país.

Rio Mekong em Luang Prabang

Vang Vieng foi inicialmente um posto militar francês, circundada pelo rio Song, onde chineses iniciaram o comércio na década de 40. A sensação até hoje é de uma cidade criada para e por estrangeiros.

De Vang Vieng seguimos para Vientiane, a capital de Laos. A cidade possui muitas características da ex-metrópole França. A avenida principal possui seu glamouroso Arco do Triunfo e, guardada as devidas proporções, é ali a Champs-Elysées do sudeste asiático. Andando pelas ruas encontramos Coiffeur, Vins de France e tomamos café da manhã comendo pão francês e queijo La vache que rit. C’est la crème de la crème de la décadence avec élégance!

Além de passar pela capital de Laos o grande rio Mekong percorre 3,5 mil km em todo seu percurso e banha uma área maior que a França. Ele é o maior rio da região e um dos poucos no mundo que ainda não foram degradados por indústrias e barragens. O futuro da bacia hidrográfica do rio Mekong está sendo pauta de discussão entre as autoridades de todo sudeste asiático. O principal assunto é o projeto de vinte e nove represas que geraria energia e irrigaria plantações de arroz. O projeto sofre por um lado a pressão das empresas dos tigres asiáticos que necessitam dessa energia e por outro lado a pressão dos ambientalistas que lutam para evitar o desastre ecológico que a inundação geraria. As obras foram prorrogadas por causa da Segunda Guerra da Indochina (conhecida como Guerra do Vietnã) e pela crise asiática de 1997 e hoje os projetos seguem sendo analisados pela Mekong River Comission.

Apesar do fértil vale que o país possui grande parte da população vive na miséria. Laos é o número 138 do total de 174 países na lista de Índice de Desenvolvimento Humano. 80% da população é rural com insuficientes serviços de saúde básica, acesso à água potável e saneamento. Segundo a UNDP (United Nations Development Programme), em Laos – 1996, 52% dos nascimentos não eram atendidos por agentes de saúde, 54% das crianças com menos de cinco anos estavam abaixo do peso normal e o índice de analfabetismo feminino era de 57,9%.

Muitos problemas nutricionais poderiam ser minimizados com conhecimentos básicos de agricultura, pecuária e piscicultura. O país possui boa terra, bom rio e bom clima, mas não possui alimento para o auto-sustento. Agricultores fazem os pré-históricos desmatamentos e queimadas para plantarem e usam grandes quantidades de inseticida DDT que já foi praticamente abolido no resto do mundo. Em alguns rios vimos pesca com tarrafas onde retiram alevinos (filhotes de peixes) com menos de 4cm de comprimento e praticamente já não existem peixes adultos. O semelhante ocorre com os pássaros. Não existe ecossistema que resista.

Além da falta de conhecimento parece haver um consenso entre o que vimos e o que os escritores que tivemos acesso escreveram sobre a indolência do povo em geral. O livro de Henri Mouhot, Travels in indochina, já comentava a respeito em 1861.

“Their poverty borders on misery, but it mainly results from excessive indolence, for they will only cultivate sufficient rice for their own support; this done, they pass the rest of their time in sleep, lounging about the woods, or paying visits to their friends.”

O Ministro da Agricultura e Florestas é consciente dos problemas e anunciou algumas melhorias para o futuro: “The government has formulated rules on land management and allocation to eliminate slash-and-burn agriculture and encourage people to take up fixed occupations. Land will be allocated to the many ethnic groups for effective management and use under the guidance of macro-level management bodies.”

Pescador em Laos

O caso de Laos pode servir de exemplo para os nossos “sem-terra” do Brasil. Laos deixa claro que apenas ter terra não resolve o problema de ninguém. Aqui vivem muitos “com-terra” mas sem tecnologia, sementes, determinação… e “com-fome”.

Encontrei um médico e conversamos sobre a desnutrição na região. Perguntei o porquê dos laosianos não tomarem leite apesar de criarem algumas vacas. Ele explicou que o ser humano é o único mamífero que toma leite depois da amamentação e isso não é “normal” para o nosso organismo. Ele explicou que, no mundo, os únicos humanos que se adaptaram para absorver os alimentos lácteos foram os indoeuropeus que já bebem leite há dezenas de milhares de anos. Fiquei “encucado” com a questão e fui pedir mais informação para o conterrâneo Dr. Sergio Pena, que é especialista no assunto.

“Argus, o seu amigo do Laos está absolutamente correto. Para digestão do açúcar do leite, lactose, necessitamos de uma enzima própria chamada lactase. Em todos os mamíferos e também nos primeiros humanos (que emergiram na África) a produção da enzima lactase no intestino não continua após o desmame. Quando o gado foi domesticado por um grupo humano que havia migrado para a Europa, houve seleção para persistência da produção da enzima lactase, permitindo então a ingestão do leite de vaca como alimento. ”

Prof. Dr. Sergio D.J. Pena

Departamento de Bioquímica e Imunologia – Universidade Federal de Minas Gerais

Apesar dos problemas de desnutrição, tráfico e pobreza em geral, Laos é um local seguro e possui um povo muito simpático. Foi um país que não estava na minha rota e fiquei muito feliz por tê-lo incluído. Ficará na lembrança a criançada correndo atrás da bicicleta, gritando “sabadi” e jogando futebol com bolas de bambu.

De Vientiane cruzamos a fronteira para Tailândia pela ponte do rio Mekong (“ponte da Aids” que comentei num relatório anterior) e fomos para Nong Khai.

Nong Khai é uma cidade tailandesa que funciona como uma segunda capital de Laos. Seus hospitais fazem propaganda do serviço que prestam em toda a fronteira com Laos e grande parte das lojas de eletrônicos e afins abastecem a população do ainda desprovido país vizinho.

Ilha de Ko Chang - Tailândia

Resolvemos passar o Natal e Ano Novo num local turístico para dividir a festa com os companheiros ocidentais. Escolhemos a ilha de Ko Chang, perto de Bangkok, e descemos de trem para não perdermos a festa. No país do budismo o Natal só foi lembrado por nós turistas. Fizemos uma festa na praia e a única coisa que autenticou a data foi um Papai Noel bêbado que quase se afogou no mar. No Ano Novo a ilha ficou cheia de turistas e tailandeses, novamente fizemos uma festa na praia. Atravessamos o ano ao som de “all we need is love” com fogos de artifício, show de malabarismo e muita esperança.

Da ilha fomos para Camboja. Um país com uma história impressionante que deixarei para escrever no próximo relatório.

Grande abraço e até a próxima,
Argus

Para saber mais
United Nations Development Programme – www.undp.org
Mekong River Comission – www.mrcmekong.org
Nordic Institute of Asian Studies – www.nias.ku.dk
LARS2 Second International Large Rivers Symposium Feb 11-14, 2003 -www.lars2.org
World Water Forum – Japan – March 16-23, 2003 – www.worldwaterforum.org
Livros:
Butcher, Tom and Ellis, Dawn, Laos, Pallas Athene, London, 1993
Castle, Timothy N., At War in the Shadow of Vietnam, Columbia University Press, New York, 1993
Chape, Stuart, Biodiversity Conservation, Protected Areas and the Development Imperative in Laos PDR: Forging the Links, The World Conservation Union, 1996
Chomsky, Noam and Herman, Edward S., After the Cataclysm, Spokesman, Nottingham, 1979
Choulamany-Khamphoui, Outhake and Schenk-Sandbergen, Loes, Women in Rice Fields and Offices: Irrigation in Laos, Empowerment, Heiloo, the Netherlands, 1995
Claridge, Gordon, Thanongsi Sorangkhoun and Baird, Ian, Community Fisheries in Lao PDR: A Survey of Techniques and Issues, The World Conservation Union, 1997
Evans, Grant and Rowley, Kelvin, Red Brotherhood at War: Vietnam, Camboja and Laos since 1975, Verso, London 1984
Gosling, Betty, Old Luang Prabang, Oxford University Press, Oxford, 1996
Handicap International, Living with UXO, 1997
Hoskin, John and Hopkins, Allen W., The Mekong, Post Books, Bangkok, 1991
Ivarsson, Soren, Svensson, Thommy and Tonnesson, Stein, The Quest for Balance in a Changing Laos, Nordic Institute of Asian Studies, 1995
Lewis, Norman, A Dragon Apparent, Johathan Cape, London, 1951
Librar of Congress Federal Research Division, Laos:: A Country Study, New York, 1994
Mansfield, Stephen, Culture Shock! Laos, Kuperard, London, 1997
Mayoury, Ngaosyvathn, Lao Women: Yesterday and Today, State Publishing Enterprise, Vientiane, Laos, 1995
McCoy, Alfred W., The Politics of Heroin: CIA Complicity in the Global Drug Trade, Lawrence Hill Books, New York, 1991
Murphy, Dervla, One foot in Laos, John Murray, Great Britain, 1999
Stuart-Fox, Martin, A History of Laos, Cambridge University Press, Cambridge, 1997