Etapa 2 – Relatório 1

08.JUL.2002

“A minha alegria atravessou o mar…” Depois de 12 horas de avião sobre o imenso Oceano Pacífico cheguei na Austrália. Já no aeroporto peguei as duas caixas de papelão, desembalei a bicicleta e os alforjes, montei tudo e saí pedalando…

Fui devagar para me acostumar com a nova forma de pedalar – trânsito inglês – onde eu tenho de ficar sempre do lado esquerdo da pista. No caminho para Sydney percebi que a bandeira brasileira ainda é pouco conhecida por aqui. Diferente da América do Sul, ninguém buzina, grita ou acena. Cheguei na cidade e fui logo procurar o lugar mais barato para ficar. Que país caro! Fiquei num albergue pagando o preço de um hotel chique em Lima. A mudança foi literalmente “oceânica”.

Talvez a única semelhança dos países que passei (Brasil, Bolívia e Peru) para a Austrália seja a história de colonização européia. Aqui chegaram os ingleses em 1770 e seguem até hoje. Mesmo com a independência em 1942 a Austrália continua como parte da Comunidade Britânica – Commonwealth – que é uma associação de 54 ex-colônias que conta com quase um quarto da população mundial. É uma monarquia parlamentarista cuja chefe de Estado é a Rainha Elizabeth II do Reino Unido. Em 1999 os australianos decidiram em plebiscito pela manutenção da monarquia.

A admiração pelos colonizadores é explícita. A bandeira nacional, a língua, o imponente Queen Victoria Building no centro de Sydney e até a falta de bunda das mulheres são exemplos que comprovam que aqui estamos em terras inglesas longínquas.

Queen Victoria Building - Centro de Sydney

O amor é tanto que na Guerra Mundial o então primeiro ministro Robert Menzies declarou guerra à Alemanha formalmente para defender a “pátria mãe”.

“Fellow Australians, it is my melancholy duty to inform you officially that, in consequence of persistence by Germany in her invasion of Poland, Great Britain has declared war upon her, and that as a result, Australia is also at war.” Robert Menzies

Em 1770 o navegador James Cook chegou na Austrália mas apenas em 1788 Arthur Phillip começou a povoar o distante continente. Arthur Phillip, depois de uma parada de quatro anos no Brasil, comemorou sua chegada na Austrália com cachaça brasileira e transformou a região em colônia penal de criminosos ingleses. A primeira área européia a ser permanentemente ocupada foi o bairro The Rocks na atual Sydney.

Mais uma vez a história dos habitantes nativos se repete. Os aborígines foram praticamente dizimados na colonização. Estima-se que a população era de 600 mil habitantes em 1788 e chegou a apenas 70 mil em 1940. Hoje a população aborígine vem crescendo gradualmente e está estimada em 427.000 habitantes. Os problemas sociais dessa minoria continuam sendo palco de muita discussão. Em 1999 foi rejeitada uma emenda constitucional que visava o reconhecimento dos aborígines como “o primeiro povo da nação” enquanto nas Olimpíadas de Sydney, em 2000, a atleta aborígene Cathy Freeman acendeu a tocha olímpica na cerimônia de abertura.

Até metade do século passado era proibida a imigração de não brancos. Hoje mais de 90% da população é composta por descendentes europeus. A “Australian Bureau of Statistics” estima um recorde de crescimento demográfico: um nascimento a cada 2 minutos e 10 segundos, uma morte a cada 3 minutos e 55 segundos e um novo imigrante internacional a cada 5 minutos e 50 segundos, gerando um crescimento populacional total de uma pessoa a cada 2 minutos e 38 segundos.

O país com 7.682.300 km² – quase do tamanho do Brasil (8.514.204,8 km²) – possui uma população de apenas 19.500.000 habitantes – pouco mais que um décimo da brasileira – e uma grande diversidade cultural e religiosa. Em 1996 o Censu australiano cadastrou 92 religiões diferentes.

A informalidade é marca registrada do australiano. É muito comum tirar uma manhã em plena quarta-feira para um golfe ou surfe. O lema aqui é eficiência sem frescura e dessa forma conseguiram o título de segundo maior índice de desenvolvimento humano do mundo.

É um país com postos de informação em quase todas as cidades, acesso para deficiente físico em todos estabelecimentos, um governo desburocratizado e eficiente, 70% da população com casa própria, menos de 5% de analfabetismo e uma grande classe média com excelente padrão de vida.

Opera House - Sydney

Sydney é a cidade mais populosa da Asutrália (3.986.700 habitantes) e possui grandes marcos da arquitetura australiana. A mundialmente conhecida Opera House foi resultado de uma competição internacional de arquitetura no final da década de 1950 e foi finalizada somente em 1973. Curiosamente sua cobertura foi toda feita com ladrilhos de banheiro.

Outra importante construção de Sydney é a Harbour Bridge que liga a parte sul e norte da cidade. Quando foi construída, em 1932, era a maior ponte em arco do mundo.

Depois de uma semana fazendo contatos com escolas e montando um pequeno resumo da primeira etapa da viagem, comecei a percorrer o litoral do estado de New South Wales. Segui junto com aproximadamente 3500 baleias que migram entre maio e julho para o norte e voltam para a Antártica entre setembro e novembro. Por várias vezes pude vê-las saltando perto da costa.

A primeira parada foi em Mona Vale onde acampei num parque e acordei com um nascer do sol incrível. Está fazendo muito frio de noite e as temperaturas estão variando entre 5 e 20 graus.

Campig em Mona Vale

De Mona Vale segui para Terrigal fazendo preguiçosos 40 km por dia. Os dias parados em Lima e Sydney me enferrujaram um pouco. As estradas são incrivelmente boas. Quase sempre tem pista para bicicleta e pela primeira vez na viagem os carros estão me dando passagem. Aqui bicicleta é igual moto, tem respeito mas também tem responsabilidades. O uso do capacete é obrigatório e logicamente também é necessário respeitar as sinalizações.

Terrigal

De Terrigal fui para Lake Munmorah passando por alguns parques nacionais. O caminho é feito de várias casas com grandes jardins ou parques nacionais sem nenhuma construção. As casas refletem a homogeneidade da classe média nacional, são sempre casas boas mas sem nenhuma extravagância.O caminho possui várias barras de rios e lagos e por algumas vezes tive de atravessar de barco. Em Lake Munmorah cheguei em um camping que não tinha ninguém (quem vai acampar na praia no inverno?!). Decidi então acampar dentro do vestiário para evitar o frio da noite.

Segui para Newcastle onde assisti o jogo Brasil X Turquia. Aqui a Copa está sendo acompanhada mas obviamente com um interesse muito menor que na América do Sul. Vi Brasil X Inglaterra em Sydney e éramos indiscutivelmente uma minoria feliz no país dos ingleses. No jogo Brasil X Turquia eu quase perdi o começo do jogo por causa de uma final de Rugby freneticamente acompanhada pelos australianos.

Torcida brasileira na Austrália

O esporte daqui é o Rugby no inverno e Críquete no verão.
“O nome do esporte (Rugby) origina-se da Rugby School, tradicional escola inglesa onde foi criado, em 1823. Irritado com sua má atuação no futebol, um dos alunos, William Webb Ellis, agarrou a bola com as duas mãos e correu em direção ao gol adversário, levando todos os outros jogadores atrás de si e dando origem a essa prática.” Almanaque Abril

A violência do Rugby não reflete o dia a dia do pacato australiano que até hoje não vi brigar, xingar, buzinar… nada. Tudo em silêncio e paz. Paz até demais para um latino americano. Chegam até a colocar placas nas estradas pedindo para os caminhoneiros frearem devagar para não fazerem barulho.

Sydney e Newcastle são cidades grandes e não lançam nenhum esgoto no mar. Todo esgoto é tratado e as praias são limpas.

De Newcastle fui para Nelson Bay e ai fiquei por dois dias esperando o forte vento diminuir para poder atravessar de barco a baía de Port Stephens. Meus planos eram atravessar de barco e pedalar mais dois dias para ver a final da Copa na cidade de Foster. O dia do jogo chegou e o vento não passou. Resolvi então voltar para Newcastle e assistir junto com os amigos brasileiros que tinha conhecido. Logicamente valeu a pena. A festa foi longa… mas seguramente nada perto do que deve ter sido no Brasil.

Agora meu orgulho está ainda maior em desfilar com a bandeira do Brasil. Vira e mexe encontro no meio da silenciosa Australia alguém buzinando e gritando – “Runaldeinho” “Brezil”. Estendo a mão com os cinco dedos abertos, abro um sorriso e sigo pedalando. Maravilha!

Um grande abraço e viva o Penta!
Argus

Aproveito para agradecer o Consulado do Brasil em Sydney pelo apoio de divulgação do projeto para as escolas australianas.

Para saber mais

Texto
Cultural similarities between Brazil and Australia and Brazil’s role in the americas
Antonio A. Dayrell de Lima – Amabassador for Brazil in Australia
related web-site
http://brazil.org.au
www.cityofsydney.nsw.gov.au
www.info2go.com.au

Sites
www.forumclimabr.org.br
www.cultureandrecreation.gov.au
www.acn.net.au
www.thecommonwealth.org