Etapa 5 – Relatório 8

Bye bye Europa

Bunã Ziua amigos, Bem vinda a África novamente!!!! Fiz minhas últimas pedaladas na Romênia até a capital Bucareste, peguei um avião e aterrisei aqui no Quênia, coração do continente irmão e berço da humanidade!

As úlitmas pedaladas na Europa…

Sibiu foi uma cidade especial na Romênia. Lá fiz bons amigos, várias caminhadas e pedaladas pelas montanhas. Fiquei por lá durante duas semanas a convite dos amigos Anca e Thomas, donos de um simpático albergue no centro histórico da cidade.

Vista da janela do Albergue em Sibiu

Foto: Palestra no Centro Franco-Romeno em Sibiu

Esquerda: Igreja Ortodoxa no Museu de Sibiu

Com a longa parada eu pude ver, pela primeira vez na vida, a incrível transformação de cores do outono europeu. Nos primeiros dias caminhei vendo as árvores verdes e poucos dias depois fui na mesma floresta e tudo já estava amarelo. Nos últimos dias, o caminho era feito de folhas no chão e, em cada rajada de vento, caía uma chuva de folhas. A floresta já estava ficando cinza e em breve, com a neve, ficará tudo branco.

Foto: Metamorfose de cores na floresta

Numa das pedaladas subi até o topo gelado a quase 2 mil metros acima do nível do mar, demorei muito e acabei descendo depois do pôr do sol. Foi literalmente a maior fria. Minha mão quase congelou e, quando me dei conta, os dedos já estavam cheios de pequenos cortes.

Transilvânia

Não vi drácula mas vi muito gnomo. Alguns romenos que vivem nas áreas rurais são incrivelmente baixos e ficam caminhando no meio da floresta para pastorear ou cortar madeira. Suas roupas e chapéis são engraçados e não foi difícil me desconectar do mundo real e dar asas à imaginação nesse mundo encantado.

Foto: Pastores brincando com a bicicleta

A população de Sibiu e de várias outras cidades da Transilvânia é dividida entre romenos e saxões – antigo povo germânico que habitava a Saxônia, região da Alemanha entre o rio Reno e o mar Báltico.

Os Saxões vieram para a Romênia quando a Transilvânia fazia parte da Hungria – a convite do rei Húngaro, entre 1241 e 1242, os saxões receberam terras grátis para povoarem e defenderem o país. O prefeito de Sibiu é um saxão votado pela grande maioria e amado por todos. O interessnte é que até hoje, 760 anos depois, esse povo não se misturou. Apesar de serem amigos, saxão é saxão e romeno é romeno.

De Sibiu pedalei para Brasov e no caminho dormi na casa de um simpático casal que me abrigou quando começou a chover. No quintal da casa possuem duas vacas, três porcos, galinhas, patos e plantações. Vivem praticamente de subsistência e vão para o mercado apenas para comprar pão. Fizeram para mim uma comida especial, a mama-liga, uma espécie de polenta com queijo. Esquentaram a casa com lenha e bebemos das últimas garrafas de vinho que produziram ano passado. Antes de partir ainda me deram algumas maçãs que são impressionantemente mais saborosas que as maçãs importadas que comemos no Brasil. Vice-versa acontece com as bananas que são deliciosas no Brasil e aqui, apesar de perfeitamente amarelas, quase não possuem gosto. Obrigado amigos pela boa e saudável comida e hospedagem que tive!

Brasov

Em geral a parte medieval das cidades são muito bonitas mas a periferia com os prédios construídos durante o sistema comunista são terríveis. Brasov é mais um exemplo – sua área medieval é a mais visitada da Romênia e possui uma das mais belas arquiteturas do país, um contraste com a feia periferia com blocos de concreto.

Em Brasov está acontecendo um fato excêntrico – os ursos que perderam seu habitat natural estão se aproximando da cidade para comer lixo. A cena, que não quis ver, é triste mas está chamando a atenção de turistas e é possível até mesmo agendar um excursão para vê-los.

Nas montanhas sempre fiquei atento com os ursos mas acabei não vendo nenhum. Esse é um animal perigoso para o humano. Se ele encrencar com você – já era – não tem pra onde fugir. Ele vai subir na árvore mais rápido do que você, vai correr mais do que você e, se você resolver encarar, vai perder. Num inesperado encontro, a única coisa sensata a fazer é largar a mochila ou qualquer coisa com comida e sair andando calmamente. Se você der sorte ele vai preferir comer a comida e te deixar em paz. Se mesmo assim ele preferir se aproximar é melhor ficar parado. Dizem que nesse caso ele fica te cheirando e, como não gostam da carne humana, te abandona. Uma semana antes deu chegar, uma criança em Brasov se aproximou de um urso comendo lixo e o urso comeu a criança! Urghhh.

CONSCIÊNCIA AMBIENTAL

Durante minha estada na Europa tentei coletar alguns bons exemplos de comportamente ambiental. Em alguns países o respeito pela natureza é realmente exemplar e vale a pena ser seguido.

. Lavando carros

Existem leis proibindo as pessoas de usarem detergentes para lavar os automóveis nas ruas. Para lavar carros, além de tentar economizar ao máximo a água, deve-se ter o cuidado de utilizar apenas sabão sem produtos químicos (por exemplo o nosso sabão de coco).

É importante lembrar que na cidade não é toda água que vai para o esgoto. Dentro de sua casa, toda água que vai para o ralo é considerada esgoto e será posteriormente tratada e devolvida para o meio ambiente. Mas tudo que entra dentro dos bueiros das ruas vai, sem tratamento, direto para o meio ambiente. Por isso é importante deixar as ruas sempre limpas e ter atenção a tudo que pode vir a entrar nos bueiros.

. Lixo orgânico no quintal

Em várias casas vi pessoas utilizando o lixo orgânico como adubo no quintal. O resto do lixo logicamente deve ser dividido entre recicláveis e “lixo convencional”. Latas, papéis, plásticos e vidros possuem receptores e o “lixo convencional” acaba ficando consideravelmente menor. Com isso, diminui também a área de depósito (os famosos lixões a céu aberto) e a quantidade de química para seu tratamento.

. Exterminando os indesejáveis sacos de supermercado

Muitos supermercados cobram pelo saco plástico. Isso pode ser visto por dois pontos de vista. Um pessimista acreditando que é somente mais uma estratégia para ganhar dinheiro e um outro ambientalista que acredita ser essa a única forma das pessoas pararem de usar tanto saco plástico inutilmente. O plástico é um dos maiores inimigos da natureza e é fácil ver nos países menos conscientes a imensidão de sacos plásticos nas beiras dos rios e nas calçadas. A meu ver a estratégia é excelente. Aqui na Romênia, por exemplo, todo supermercado cobra. Isso fez com que as pessoas lembrem de levar uma mochila antes de sair às compras e é notável a ausência dos sacos sujando a natureza.

. Descarga com duas opções

As descargas dos banheiros possuem duas opções. Um pequeno xixi não precisa de muita água para escoar e você pode utilizar a opção de pouca água ….

. Bicicleta e transporte público

Como foi bom visitar as capitais francesa, inglesa e eslovena com a bike! Foram três capitais que já aprenderam que a única forma de diminuirmos o aquecimento global causado pelos carros é utilizando bicicleta e transporte público. Menos poluição, menos tráfico, menos guerra por petróleo e mais economia! Viva a magrela.

Bom, acho que mais exemplos virão no percurso. Outras dicas, como por exemplo o incrível biogás adotado nas reservas naturais do Nepal, já foram citadas em relatórios anteriores. O mais importante é ficar atento ao nosso comportamento e sempre pensar nas suas consequências para o meio ambiente – refletir sobre o lixo que produzimos e o que consumimos e fazer nossa parte.

Grande parte das ações que pode diminuir o nosso estrago no meio ambiente está em nossas mãos, mas muitas outras estão nas mãos de grandes empresários e governo. É o caso do Projeto Rosia Montana no centro da Transilvânia que, com a ambição de extrair 13.000.000 toneladas de minerais por ano, causará um imenso impacto ecológico, econômico, social, cultural e histórico na região. Segundo a Friends of the Earth International, serão no total 400.000.000 toneladas de lixo acumulado, uma superfícies de 1600 acres afetados e 2000 pessoas precisarão ser retiradas. Vários ambientalistas e ativistas estão protestando para impedirem o projeto mas, nesses casos, agente acaba ficando na mão da consciência e integridade dos nossos governantes.

Voltando para a estrada…

Para ir de Brasov para Bucareste foi preciso atravessar a “grande muralha” dos montes Cárpatos que cercam a Transilvânia. Respirei fundo e subi os mil e quinhentos metros em um dia. Tive sorte com o tempo – apareceu o sol e consegui descer a montanha sem congelar. Lá do alto até Bucareste foi moleza. A capital fica no planície do vale do Danúbio e não tive mais nenhuma subida.

Na plano caminho para Bucareste vi muitas indústrias, extração de petróleo e segui vendo muitas plantações e comunidades rurais.

Foto: Indústria perto de Bucareste

“The mountain forests supply raw material for a well-developed timber industry. With abundant mineral resources (oil, natural gas, coal, iron ore and bauxite), Romania has begun extensive industrial development. Its economy still depends to a great extent on the export of raw materials and agricultural products. Romania defines itself as a ‘developing country’, and is attuned with Third World demands. It is also one of Europe ‘s largest oil producers. Copsa Mica, in the center of Romania , is considered to be one of the areas with the highest levels of industrial pollution in Europe . “

The New Internationalist

BUCARESTE

Bucareste é uma cidade com 2 milhões de habitantes (1999) com as belezas e problemas de toda cidade grande. Não sou fã de tráfico, poluição ou concreto, por isso tentei fazer tudo o mais rápido possível e partir logo. Fiquei num hostel barato, rodei de bicicleta por toda a cidade, fiz umas reportagens, arrumei a tela do notebook que havia quebrado (obrigado Toshiba pela compreensão e por não cobrar pela nova tela!!), fiz pedidos para não pagar a taxa extra de bagagem no vôo para a África (obrigado Tarom e Emirates Airlines pela atenção!), arrumei uns papelões, embalei a magrela e sai voando.

Dias antes da partida, o país tremeu com o maior terremoto que tiveram nos últimos 14 anos. Ele chegou a 6.0 pontos na escala Richter e balançou tudo mas apenas uma pessoa morreu. Foi o meu segundo terremoto da viagem, o primeiro foi na Malásia quando senti apenas o reflexo do grande terremoto que ocorreu na Sumatra, Indonésia, matando várias pessoas e deixando mais de 5 mil desabrigados em 2002. Já era para eu estar um pouco mais esperto e saber me proteger mas, pela segunda vez, fiquei igual bobo sem saber o que estava acontecendo. Quando me dei conta o terremoto já havia passado.

Agora estou na incrível África tentando compreender um pouco mais sobre esse continente que é uma das mais importantes raízes do nosso povo brasileiro.

Mas a África ficará para o próximo relatório…

Grande abraço,
Argus

Veja um mundo diferente!!

Para saber mais
Sites recomendados: (Novo!)

Sites sobre este relatório
Projeto Rosia Montana
www.rosiamontana.org

Friends of the Earth International
www.foei.org

Albergue em Sibiu
www.hostelsibiu.home.ro

Economia de Energia
www.saveenergy.co.uk

Recycle City
www.epa.gov/recyclecity/

International Institute for Energy Conservation
www.iiex.org