Etapa 5 – Relatório 5

Últimas Pedaladas na Europa Ocidental

Ciao amigos!! Na França segui pedalando para o sul passando por lindas vilas de pedras até a costa do mar Mediterrâneo e depois acompanhei o litoral rumo leste e atravessei a Itália subindo pela terceira vez os Apeninos. Passei bons tempos na famosa Europa Ocidental mas já estava com saudade de, novamente, “descobrir” mundos desconhecidos e agora estou na Eslovênia seguindo para Romênia.

mapa percurso europa

As últimas semanas foram de muitas pedaladas… talvez o período mais pedalado da viagem.

Ainda na França, passei pelas montanhas do Maciço Central e lá parei por três dias para visitar um casal de amigos que vive em cabanas no meio da floresta. Assim como quase todas florestas da França, a que visitamos já foi ocupada pelo homem e posteriormente reflorestada.
Foto: Lavoûte Chillac

COMUNIDADE NA FLORESTA
Junto com os amigos existe uma comunidade que está optando por sair da cidade para viver na floresta. Uma forma de vida consciente e em harmonia com o meio ambiente.

Uma bela ideologia que funciona bem para as pessoas que conseguem abdicar do conforto convencional. Uma opção que pode ser vista também como uma luta pacífica contra a sociedade imposta, que é ambientalmente insustentável.


No dia em que chegamos estavam fazendo uma noite de curta metragem a céu aberto no meio da floresta. No estacionamento estavam várias vans e carros bem rodados e na frente da tela inflável estavam vários colchões estendidos e barracas – uma pequena amostra do que deve ter sido o woodstock.

No último dia projetamos algumas fotos de arquitetura vernacular que encontrei no meu caminho – casas de bambu na Ásia, cabanas sobre árvores e cavernas na Turquia, construções indígenas do Brasil, casas de barro dos Andes, etc. E, mais uma vez, aprendi muito mais do que pude ensinar.

Foto: Noite de curta metragens a céu aberto

Da floresta segui pedalando e acampando por várias belas vilas com casas de pedras até chegar no litoral do mar Mediterrâneo.

Foto:Vista da barraca

O MEDITERRÂNEO
Nice

Por amor ao meu joelho, contornei os Alpes ao invés de atravessá-lo. Por isso desci até o Mediterrâneo e fui pelo litoral entre Marseille, na França, até Genova, na Itália. O verão finalmente chegou – tive dias com mais de 33 graus de temperatura – e, durante a alta estação, cada centímetro quadrado de praia européia é disputado entre os milhares de turistas.

Foto: Praias na alta estação do mar Mediterrâneo

A agenda cultural da França seguiu me impressionando. Em várias pequenas cidades do litoral, todos os dias existem apresentações de teatro, cinema, música, dança, etc. para todos os gostos.

Quase chegando na Itália comecei a ver ruínas do Império Romano e um povo mais receptivo. Tive até buzinas, sorrisos e hellos na estrada – coisa rara na Europa.

No luxuoso e lotado litoral francês tomei muitos banhos de praia e duchas grátis pelo caminho. Grande parte da viagem foi feita em ciclovias e calçadões de frente para o mar.

Passei por várias praias famosas como St Tropez, Nice e Cannes. Ali são os locais dos excessos, é fácil ver desfiles de Ferraris e todos gastando muuuuito dinheiro. Em toda essa rota fiz camping selvagem, mesmo quando a selva era a cidade, e não precisei pagar os 15 euros por noite nos campings que, no caso de St Tropez, podem chegar ao absurdo de 50 euros para simplesmente estender uma barraca.

Foto: Respeito aos ciclistas - um túnel exclusivo para nós!

Ver tanta riqueza também traz sentimentos ruins, parecidos aos sentimentos de ver muita pobreza. Acho que todos extremos machucam de alguma forma.

Apesar de tanta riqueza e organização, o excesso de interferência no meio ambiente acabou gerando uma catástrofe natural que, por algum motivo, ainda é muito pouco difudida. Trata-se de uma alga que foi colocada no Museu Oceanográfico de Mônaco e hoje está se proliferando e destruindo todo o ambiente marinho do mar Mediterrâneo.

“In 1980, a curator at the city zoo in Stuttgart, Germany, introduced a hybrid, cold-resistant variety of the alga Caulerpa taxifolia into the zoo’s aquarium, where it proved to be a productive source of food. Encouraged, the curator sent a sample to the Oceanographic Museum of Monaco, then headed by Jacques Cousteau. During a routine cleaning of aquarium tanks, a quantity of Caulerpa was dumped into the Mediterranean Sea. Now, nearly two decades later, the “beautiful stranger,” as Meinesz calls it, has spread throughout the Mediterranean basin, covering some 10,000 acres and displacing native algae as it spreads. The result may be a wholesale remaking of the Mediterranean environment, already long victimized. ”
Gregory McNamee

Hospitalidade na Europa Ocidental
As paradas nas casas de amigos pelo percurso foram maravilhosas. Comi, bebi e me diverti muito. Mas tive pouca hospitalidade espontânea e não tive nenhum convite para dormir em casas de pessoas que eu não conhecesse anteriormente.

Na França, após a hora em que as padarias fecham, é impossível comprar um pão. Numa tarde calculamos mal o tempo e chegamos na vila depois que todas as lojas já estavam fechadas. Resolvemos pedir pão em uma casa e ,na primeira tentativa, a senhora, além de negar, fechou a porta na nossa cara. Para evitar mais desgosto, resolvemos dormir sem comer pão.
lanche acompanhado

Desde o dia que recebi o “não” do padre italiano para acampar nos fundos do Palácio Apostólico, tentei me poupar de pedir favores para os europeus. Em toda a viagem fiz meus acampamentos e minhas comidas sem perturbar ninguém, evitando assim contato com as pessoas e possíveis problemas. Uma pena, pois a parte mais linda da viagem é exatamente o contato humano.

Parece que na Europa as pessoas estão passando por uma síndrome de medo. Ali, onde possuem todos os motivos para serem felizes, é onde encotrei mais infelicidade. Talvez a senhora que me negou o pão teve medo de que fossemos terroristas. Provavelmente ela ficou cega de ver tanta mídia sensacionalista e já não consegue enxergar a vida real e entender que vive em um dos lugares mais tranquilos do mundo.

ITÁLIA
Itália, bem vinda novamente

A costa italiana que conheci decepciona e não condiz com o charme do resto do país. Ao invés de praias, vi apenas o fundo dos bares que privatizam todo o litoral. Mas apesar de não serem bonitas, todas praias estavam lotadas.

Além do fim dos banhos de mar e duchas acabaram-se também as ciclovias. Tive de pedalar na estrada cheia de caminhões e carros. Eram tantos carros estacionados na beira da estrada que as portas se abrindo acabaram virando um problema. Três delas me pegaram e uma delas furou meu alforge (mochila de bicicleta).
Foto: Costa do Mediterrâneo

Vários turistas me pergutavam de onde eu era e retrucavam – Ohhh Brasil! Muita mulher! Essa é, de certa forma, a impressão que possuem do meu país. Nos países mais porbres, o Brasil é a terra do futebol, nos mais ricos, é a terra da mulher barata, uma bunda rebolando no mapa, e para o mundo fashion, uma marca de roupa na moda.

Segui a costa até Genova, terra do Cristóvão Colombo e do incrível arquiteto contemporâneo Calatrava.
Foto: Gênova

Não fiquei muito satisfeito com o caminho pela costa e resolvi atravessar novamente os Apeninos e seguir viagem pelo continente.
Foto: Apeninos novamente

Depois de suar para subir os Apeninos, desci por lindos vales e cheguei na já conhecida planície do norte italiano. Pedalei para Verona, onde a minha rota cruzou, e encontrei novamente os amigos veroneses.
Foto: Camping nos vales.

BICICLETA
Bicicleta
A bicicleta vem aguentando firme e forte. Apesar do meu desleixo com sua manutenção, quase não tive problemas. Em Verona fiz, com a ajuda dos amigos Estéfano e Alberto, uma geral na magrela e arrumamos tudo. Comprei todas as peças que pareciam precisar e tudo custou menos do que um tanque de gasolina.

BOAS COMPANHIAS
Segui para Veneza com as amigas veronesas Alessandra e Antonella e a viagem se transformou numa grande festa.

Veneza é supostamente a terra do “companheiro” Marco Polo e a onde vi a maior concentração de turistas em toda a viagem. A cidade é linda mas, com tantos canais, seguramente um barco seria muito mais útil que uma bicicleta. Além de subir e descer escadas o tempo todo, também enfrentamos vários congestionamentos de pedestres.
de Verona a Veneza com as amigas Antonella e Alessandra
de Veneza a Eslovênia com a irmâ Amanda e as amigas Antonella e Isabelle
Veneza foi o ponto de encontro onde vieram minha irmã Amanda e amiga Isabelle para pedalarmos um pouco juntos. Alessandra voltou para Verona nós quatro atravessamos a fronteira com a Eslovênia e estamos pedalando para a Croácia.

DE VOLTA AO VELHO E BOM RITMO DE NOTÍCIAS
Fiquei algum tempo sem enviar notícias. Às vezes por falta de internet, às vezes por falta de tempo, mas às vezes por falta de notícias mesmo. Os meses no norte da França, fazendo e editando os filmes, foram muito bons para mim mas, se eu tentasse escrever sobre esse tempo na frente de um computador, os relatórios ficariam tão chatos que vocês nunca mais leriam.

Acho que agora, de volta ao ritmo de viagem em países para mim desconhecidos, naturalmente as notícias voltarão.

A curiosidade de conhecer o leste europeu falou mais alto que o meu eterno rumo oeste, por isso “errei o caminho” de casa e estou indo para a Romênia. Mas o leste europeu ficará para o próximo relatório.

Até a próxima,
Argus

Para saber mais
Cinema na floresta
www.lozere-online.com\cineco\
www.lagenetteverte.com

Genova Capital europeia da Cultura 2004
www.genova-2004.it/

Alga no Mediterrâneo
www.ideal.es/waste/alga.html
www.scienzaegoverno.com/ars03/articoli/lalga.htm
www.biologia.unile.it
www.bioparco.it

Outros
www.ancestry.com
www.globalgeografia.com
www.geotour.it
www.guiadelmundo.com
New Internationalist
www.ni.org