Etapa 5 – Relatório 3

Bonjour amigos! Depois da temporada na Grécia fui pedalar pela Itália e agora estou na França. Na Itália atravessei duas vezes os Apeninos, acampei muito, visitei bons amigos e, com muita economia, consegui atravessar um dos países mais caros do mundo. Por coincidência eu participei da maior manifestação de paz da Europa que ocorreu em Roma.

UM POUCO SOBRE A ITÁLIA
Itália é a terra das artes, dos trabalhos de Michelangelo, Leonardo da Vinci, Botticelli, das grandes óperas, cinemas e arquiteturas que fazem do país um museu a céu aberto.

Mas junto a tanta beleza o país é também um imenso problema político. No país famoso por suas máfias já passaram dúzias de diferentes governos desde a segunda guerra mundial e até então o país parece não ter encontrado um bom caminho na política.

Hoje o país é governado pelo Berlusconi, um dos homens mais ricos do mundo e dono da grande mídia italiana. Antes de ser eleito possuía vários processos pendentes contra suas empresas mas desde que foi eleito parece que tudo foi “resolvido”.

“Berlusconi inocentado – O Parlamento aprova, em novembro, lei que permite a réus em casos de corrupção solicitar a transferência do processo para outra cidade, se considerarem que os juízes são tendenciosos. A medida beneficia Berlusconi e amigos que enfrentam várias ações judiciais. Outra lei deixa de qualificar como crime a apresentação de dados financeiros fraudulentos e também favorece o primeiro-ministro, que é absolvido num processo sobre práticas contábeis de suas empresas.” Almanaque Abril 2003

O governo de direita de Berlusconi possui vários problemas internos mas talvez o de maior atenção seja sua posição internacional de apoio aos anglo-americanos no ataque ao Iraque.

“O próprio Sr. Berluscone tem feito declarações de desejo de relações estreitas com o presidente americano George Bush. Ele declarou apoio a Washington e Londres para a campanha contra o Iraque” BBCNews
Bandeiras dos Estados Unidos, Itália e Comunidade Européia
Apesar das grandes manifestações da população para a retirada das tropas italianas, o governo segue apoiando os anglo-americanos.

O país possui 57,4 milhões de habitantes (ONU, 2003) e 82,1% pratica o cristianismo sendo 97,2% deles católicos. Suas maiores exportações são de maquinários e equipamentos para transporte, químicos, roupas e vinhos.

PEDALANDO DE ANCONA A ROMA
Literalmente todos os caminhos levam a Roma. Do porto de Ancona, na costa leste do país, mirei a bússola para o sudoeste e em quatro dias eu já estava lá.
Apeninos

As estradas são excelentes – nenhum buraco, bem sinalizadas e cheia de pontes e viadutos para evitar o “sobe e desce” das montanhas. No caminho atravessei os Apeninos e acampei todos os dias.

A paisagem foi linda. A beira das pequenas estradas é totalmente utilizada com plantações ou casas e todas vilas possuem uma simpática praça com lugar para descansar e fontes de água potável. Vi vários morros com neve e passei por lugares com gelo na beira da estrada. Encotrei muitos companheiros de bicicleta mas nenhum viajante. Na Itália muitos pedalam na estrada, principalmente adultos e idosos com biclcetas de corrida. Isso foi muito bom pois os motoristas já estão acostumados e respeitam muito os ciclistas. Também vi muitas motos que quase voam, várias vezes me ultrapassavam grupos com mais de dez delas.

Tive sorte e peguei pouca chuva mas, mesmo no seco, o frio foi forte. A parte mais fria foi na descida dos Apeninos quando tive de parar de tempos em tempos e fingir que iria comprar algo em alguma loja para poder me aquecer. Nesse trecho o termômetro estava marcando apenas cinco graus.
Neve na estrada

EUROPA…
Europa é aquela velha história… Pouco me resta a escrever de sua historia antiga sem ser redundante. Afinal, na escola em que estudei, li mais sobre a Europa do que sobre nosso próprio povo. Aqui todos acham estranho eu ter estudado tanto sobre as revoluções francesa, industrial, reinados espanhóis, portugueses, Napoleões e Luíses. E infelizmente pouco estudei sobre a tao importante história do “resto do mundo”.

Durante o planejamento da viagem eu já imaginava uma certa “falta de assunto” na Europa. Aqui tudo parece ser muito normal – aqui comem com garfo e faca, usam mesas, dormem em camas, tomam banho em chuveiros, etc. Esta minha passagem pela Europa está sendo fora do plano inicial. Antes imaginei viajar quase somente no terceiro mundo. Ver o que nunca havia estudado e tentar entender o que acontece nesses países que poucos sabem que existe. Mas, durante a própria viagem, a passagem pela Europa foi ficando cada vez mais convidativa. Depois de tanto tempo em culturas tão diferentes, de países muçulmanos e hinduístas, estou aqui me sentindo em casa – e sentia falta disso. Foram vários amigos europeus no percurso e reencontrá-los está sendo um grande prazer e uma oportunidade de conhecer a Europa que não conheci como turista. Na Itália encontrei meus bons amigos que vivem em Roma, Bolonha e Verona – lugares que parei por mais tempo, fiz palestras e boas festas.

Itália é extremamente cara. Para economizar acampei em todo tipo de lugar – garagem, praça pública, casa abandonada, plantações, posto de gasolina, meio do mato, etc. Os convites para dormir em casas de famílias desconhecidas acabaram completamente. Ninguém oferece nada e agora já é motivo de alegria se não negam um jardim para eu acampar.

Numa das primeiras cidades italianas, fui buscar um lugar para acampar, em Loreto, e vários me recomendaram procurar o palácio apostólico. Lá fui eu. Chovendo e fazendo frio recebi um “não” do padre responsável pelo local, um imenso palácio no todo da montanha. Tive direito a sermão e tudo mais. -Aqui não é hotel não! Me respondeu o padre. Mama mia, que grosseria! Me arrependi de ter pedido o favor, encontrei um parque público um pouco escondido, montei a barraca e dormi.

ROMA – MANIFESTO PELA PAZ
Pouco depois da bomba na Espanha eu cheguei em Roma num clima de medo de um novo ataque. Vi bandeiras pedindo paz distribuídas em todo o país.
Um milhão de pessoas na maior manifestação da Europa

Eu estava com planos de fazer uma caminhada pela cidade antiga e acabei fazendo todo o “tour” acompanhando a imensa manifestação pela paz que ocorreu em Roma. A passeata foi em frente às ruínas romanas e terminou no Circo Massimo com aproximadamente um milhão de pessoas. Tinham cartazes de todos os tipos – liberalização de drogas, pró-palestinos, anti-globalização, comunistas e principalmente pedidos de retirada das tropas italianas da guerra contra o Iraque. Esta foi a maior manifestação de paz da Europa e foi realmente impressionante. Mais impressionante que a quantidade de pessoas reunidas é o fato de, apesar dos apelos, o intransigente Berlusconi seguir na guerra. Bom… impressionante se pensarmos em democracia mas logicamente isso não é o ponto forte do governo dele e, assim como Blair, ele tem pouca preocupação com a opinião pública. Vale lembrar que ele é o dono de quase toda imprensa do país e, com uma propaganda bem feita, até o Bush consegue virar herói.
Coliseu com a bandeira de paz

Debaixo da bandeira

No dia seguinte, um domingo, por coincidência passei no Vaticano e vi o Papa. Durante meus tempos de escola católica, imaginei que, se um dia visse o Papa, eu iria chorar de emoção. Mas, depois de viajar e ver tanta história triste que a instituição católica já escreveu, não consegui idolatrar a cena. Os minutos que passei vendo a missa foram para mim uma tempestade de imagens e histórias da ambiguidade desse imenso poder – a grande necessidade de igualdade social contraposta àquela ostentação de riqueza do Vaticano. Resolvi nem sequer tirar foto. Segui caminho e deixei a imagem apenas como mais uma cena turística da cidade – “fui a Roma e vi o Papa”.

DE ROMA A PARIS

Na França encontrei toda a minha família. Meus pais vieram de avião do Brasil e minhas duas irmãs vivem em Paris. A data do encontro estava marcada e para poder chegar a tempo eu tive de pegar alguns trens no caminho entre Roma e Paris. Tentei pedalar mais na Itália e fazer a maior parte de trem na França, onde terei oportunidade de pedalar depois. De Roma fui para Florença de trem, pedalei para Verona, ao norte da Itália, e de Verona para Paris fui novamente de trem.

Florença a Verona
Revisitei Florença para poder rever sua linda arquitetura renascentista. Dali segui pedalando para Bolonha e depois Verona. Na Itália possuem um ditado que diz que em Bolonha estão os doutores, em Veneza os senhores e em Verona os loucos. Fui lá para ver se é verdade.

Florença

A pedalada de Florença a Verona foi tranquila. No início subi novamente as montanhas dos Apeninos e tive vistas lindas. Depois desci para Bolonha, uma cidade universitária com uma urbanização exemplar. A parte antiga da cidade conseguiu manter um gabarito homogênio de pequenos edifícios que junto às primorosas fachadas criam belas perspectivas. Os edificios avançam nas calçadas porticadas e em quase todo o trajeto os pedestres ficam protegidos da chuva e neve.

Bolonha

Depois pedalei pela grande planície entre Bolonha e Verona, onde estão concentradas as indústrias do país. Essa é a região mais desenvolvida e talvez uma das mais caras do mundo.

Verona

Desenho de Verona feito por crianca

Verona é a terra de Romeo e Julieta de Shakespeare. Ali aproveitei o convite de amigos que conheci no Egito e passei uma semana . Eles vivem numa linda torre do Séc. XV no alto do morro com vista para toda a cidade. Fiz várias palestras e passei muito tempo entre italianos que não sabiam falar inglês. Na necessidade acabei conseguindo “parlar” uma mistura de espanhol, inglês, português, italiano e esperanto que foi suficiente para agente se comunicar. Se é que existe alguém normal nesse mundo, o tal ditado da loucura estava certo, ali encontrei muita gente louca… louca e feliz, e passei bons momentos com os companheiros.

Na neve em Verona

FRANÇA, FAMÍLIA, FOTOS E CINEMA
Depois de uma bela festa de despedida em Verona, peguei o trem e fui para Paris.
Aqui na França dividi meu tempo entre curtir o encontro com a família e trabalhar junto com o Centro Nacional de Havre. Estou produzindo uma exposição de fotografia e alguns vídeos com crianças que serao apresentados no Encontro Internacional de Cinema e Infância.
Familia

Havre é um imenso porto na região da Normandia ao norte da França. O centro de Havre foi projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, uma construção linda que se tornou referência em toda a cidade. Sua forma lembra um vulcão e as curvas contrastam com a arquitetura reta utilizada para reconstruir os prédios depois da guerra mundial.

“Coloco a Praça do Havre entre as dez melhores obras da arquitetura contemporânea”
Historiador Bruno Zevi
Centro Nacional de Havre - Le Volcan
Agora estou pedalando de Paris para a Inglaterra e não irei me distanciar muito para estar novamente em Havre no fim de maio. Seguirei trabalhando para terminar os filmes, montar a exposição e participar do encontro em junho.

Sobre a França falarei numa próxima oportunidade…

Au revoir, Argus

PARA SABER MAIS
JORNAIS
” Corriere della Sera – major daily
” La Repubblica – daily, owned by L’Espresso group
” Il Messaggero – Rome-based daily
” La Stampa – daily, owned by Fiat group
” Il Sole 24 Ore – financial daily

PARQUE NACIONAL EM VERONA
www.lessiniapark.it

Centro Nacional de Havre – Le Volcan
www.levolcan.com

Encontro Internacional de Cinema e Criança
www.levolcanimages.com