Etapa 3 – Relatório 2

31.JAN.2003

Namascá, acabamos de percorrer o estado indiano de Bihar e atravessar a fronteira para o Nepal. Subimos as primeiras montanhas do maravilhoso Himalaia e agora estamos em Katmandu, a capital do país.

De Bodh Gaya seguimos pedalando e buscando sempre as estradas secundárias. A pedalada variou entre interessantes vilas em áreas rurais e caóticos trânsitos perto das cidades. Passamos pelo estado de Bihar, um dos estados mais pobres da Índia com uma área plana e muitas plantações.

Templo Budista em Bihar

A região é rota de peregrinação budista. Além de Bodh Gaya, os peregrinos passam também por Nalanda, Vaishali e vários templos. Visitamos as ruínas da Universidade de Nalanda que foi fundada no Séc. V d.C e era uma das maiores Universidades anciãs e um centro de celebração das artes e ensinos orientais. As ruínas são a maior escavação de uma Universidade em todo o mundo.

Ruínas da Universidade de Nalanda

Dormimos em Nalanda e no outro dia seguimos para Patna, a capital do estado, na beira do Ganges. Já estávamos esperando uma confusão parecida com Calcutá ou qualquer outra capital indiana. Chegamos na cidade e nos perdemos durante mais de três horas. O barulho das buzinas era tanto que precisávamos gritar para nos comunicar.

Anoiteceu e ainda estávamos procurando algum hotel e quando finalmente encontramos um, tivemos o mesmo problema de Dhanbad – eles não aceitavam turistas. O único hotel que nos aceitou foi um cheio de estrelas que nos custou os olhos da cara. Tomamos um saudoso e longo banho de água quente, dormimos e seguimos para Vaishali.

Tráfego em Patna

Vaishali é onde Buda fez seu último sermão e anunciou sua condução ao Nirvana. É um vilarejo muito simples com belas stupas budistas. Ali encontramos um simpático templo de Sri Lanka que nos hospedou. Na manhã seguinte seguimos viagem percorrendo por uma estrada alternativa sem nenhum caminhão e cheia de crianças e animais no meio da pista. Várias casas de barro possuem pinturas nas paredes que dão uma beleza singular para as vilas. Na região muitos não possuem energia elétrica, a vida é basicamente rural e além da agricultura criam vacas, búfalos e cabritos. O solo argiloso fornece fartura de matéria prima para os tijolos que chegam a ser usados até como pavimento de estrada.

Casas com desenho nas paredes de barro

Na Índia o barulho e a poluição já viraram rotina. Os próprios indianos não se incomodam mais com os plásticos e lixo por toda a cidade. Durante todo mês não vimos ninguém varrendo as ruas e quase enlouquecemos com as buzinas incessantes dia e noite. Os prédios também refletem essa desordem. Em geral constroem até alguém do governo “mandar parar” e quando param deixam eternamente a construção pela metade com ferros e tijolos por toda parte. Curiosamente quase não existem ratos ou baratas. Vimos muitos cachorros, macacos, esquilos, milhares de mosquitos e algumas cobras de estimação que algumas pessoas carregam no pescoço ou em pequenas cestas de palha.

A diferença de direitos entre homem e mulher é visível. Somente homens chegavam para conversar conosco ou eram vistos nas festas. As mulheres são limitadas aos trabalhos braçais e possuem muita pouca liberdade na sociedade. Até hoje ocorrem casos dos pais matarem os bebês femininos pois são considerados prejuízo para a família. E ainda ocorrem casos onde a mulher que perde o marido também tem que morrer para acompanhá-lo. A diferença de incentivo à educação também é alarmante. O resultado dessa discriminação está na estatística do país que hoje possui mais homens que mulheres. Nos últimos anos a ONU tem alertado o governo indiano sobre o problema mas as diferenças continuam.

Estrada em Bihar

As nossas bicicletas e o cabelo loiro da Alexandra chamaram muita atenção. As pessoas ficavam nos olhando fixamente e não falavam nada. As vezes nos sentíamos um macaco no zoológico. Num restaurante de beira de estrada o dono chegou a improvisar uma cerca com cadeiras para delimitar a área da “platéia” que foi nos ver.

As sagradas vacas da Índia contam também um pouco da história da “Rota da Seda Brasileira”. Quando comecei a viagem em Cordisburgo, nos sertões de Guimarães Rosa, passei próximo aos mais avançados projetos genéticos de gado no Brasil. Esse gado é produto de várias raças indianas que estão hoje presentes em todo o mundo. Hoje o Brasil, com um intercâmbio genético de alta qualidade, possui o maior rebanho comercial do mundo com 155 milhões de cabeças.

Atravessamos mais uma fronteira e chegamos no Nepal, um país territorialmente pequeno que separa as duas grandes potências asiáticas: Índia e China. A divisão política é geograficamente clara com a imponente cadeia de montanhas do Himalaia.

No primeiro dia no Nepal os hindus estavam comemorando o festival sagrado das cores, Holi Festival, e saíram pelas ruas com tinta (pó-xadrez) nas mãos pintando todos que passassem. Nossas caras e bicicletas ficaram todas vermelhas mas logo depois nos limpamos com uma chuva de granizo que marcou o início da subida.

As montanhas de Himalaia lembram muito os Andes. O desafio da vida nas montanhas parece delimitar um comportamento comum entre seus moradores. Como me escreveu o amigo Ferolla “(nepalês) é um povo achivesado, pequeno e simpático, forte pra caramba e sob um casco franzino, já vi deles carregando carga de um jegue, tipo um quíchua boliviano magro, pero com o mesmo colorido, como se parecem todos os montanheses”. E põe carga de jegue nisso! Aqui vimos pessoas carregando até duas máquinas de lavar na carcunda.
Montanhês carregado

Igual nos Andes, no Himalaia também recortam as montanhas em curvas de nível para as plantações. Mas aqui não usam pedras para fazerem os degraus e muitos desmoronam causando grandes erosões.

Plantações em curvas de nível

O país possui 23,6 milhões de habitantes (2001) e 90% da população trabalha na agricultura – principalmente na produção de arroz. A democracia foi reintroduzida apenas há 10 anos, após três décadas de monarquia absolutista. Com a abertura para visitação de extrangeiros, o turismo, principalmente de aventura, está ganhando força. Muitos procuram a região para caminhadas, canoagem e escaladas. As principais religiões são o hinduísmo (76%) e o budismo. Vários budistas tibetanos, seguidores do Dalai Lama, fugiram do Tibet após a sua invasão e domínio pelos chineses. Hoje muitos vivem em Katmandu e, se voltarem para o Tibet, não poderão sair novamente.

A Família Real sofreu uma chacina em 2001. O Rei e nove membros foram mortos. O veredicto oficial é um história shakespeariana onde o príncipe foi proibido de casar com a amada da família rival. Por isso assassinou a própria família num jantar e depois suicidou.

Nas montanhas do Himalaia

A subida do Himalaia foi quase contínua e no alto tivemos frio e névoa. Passamos vagarosamente por vários comunidades rurais, atravessamos diferentes vales e tivemos o esforço das subidas compensado por visuais maravilhosos. Todos moradores nos cumprimentaram com um namastê simpático e vários reconheceram a bandeira do Brasil. Muitas crianças, com as bochechas queimadas de frio, brincaram de empurrar as bicicletas por alguns quilômetros de subidas. Nas montanhas pude realmente curtir a bike nova. Agora estou pedalando com uma bicicleta de 27 marchas, quadro de fibra de carbono, freios a disco, suspensões, bons alforjes, boa estabilidade e pernas acostumadas com o batente. Muito melhor que nas etapas anteriores.

Criançada empurrando as bicicletas

De Hetauda para Katmandu existem dois caminhos – um menos inclinado onde os caminhões e ônibus passam e outro mais acentuado e sem tráfego. Escolhemos a segunda opção e no meio da subida paramos em Churia, uma pequena vila com poucas dezenas de casas e um povo muito simpático. Num hotel improvisado dividimos um quarto com algumas cabras e uma vista maravilhosa. O pessoal nas montanhas não é muito acostumado com chuveiros e tivemos de encarar baldes de água fria para saciarmos esse nosso “estranho” costume de tomar banho.

Parada na subida para Daman

Recebemos a notícia da guerra no Iraque através do Bikash, um garoto de 13 anos que na pequena Churia sabiamente aprendeu um inglês perfeito. Ele nos traduziu o noticiário de um pequeno rádio chiado e comentou “- A guerra começou. Os Estados Unidos estão bombardeando o Iraque. Esse Bush é um cara mau.”

Durante toda a viagem não encontrei nenhum brasileiro, boliviano, peruano, australiano, timorense, indonésio, malaio, laosiano, cambojano, indiano ou nepalês que concordasse com essa guerra. Absolutamente nenhum. No mundo que estou conhecendo ninguém acreditou nessa “missão pacifista” de fazer guerra pela paz. Ao contrário, a leitura desta guerra está sendo a expansão do Império capitalista anglo-americano buscando dinheiro bélico e petróleo.

Nós queremos paz!

“Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.”

Gabriel Garcia Marquez

Seguimos subindo e atingimos o topo da primeira cadeia de montanhas (2488 m.a.n.m.) perto da cidade de Daman. Dali seria possível visualizar o Everest ou Sagarmatha em nepalês (montanha mais alta do mundo com 8848 m.a.n.m.) mas não tivemos suficiente visibilidade e vimos apenas névoa.

Névoa no alto da montanha

Descemos para o lindo vale, considerado Patrimônio Natural da Humanidade, e chegamos na capital Katmandu. Agora estamos arrumando algumas coisas nas bicicletas e tentando consertar o notebook que está com problemas.

Grande abraço e até a próxima!

Para saber mais
ABCZ – Associação Brasileira de Criadores de Zebu
www.abcz.com.br
http://planeta.terra.com.br/arte/museudozebu/

India
www.bodhgayanews.net
www.travel-india.com/cityac/bihar
www.indiaprofile.com
www.biharonline.com

Nepal
www.ganeshas-project.org
www.nepalhomepage.com
www.world-odyssey.com/nepal
www.public.iastate.edu/~dev/Nepal
www.nsa-cebu.com.np
www.photius.com/wfb2000/countries/Nepal
www.southalabama.edu/nepal
www.canepal.org.uk
www.nepal.de