Etapa 3 – Relatório 10

Salam Malaikom, Da Turquia fui para a Siria, fiz uma rápida visita no Líbano e acabo de cruzar a fronteira com a Jordânia. As montanhas acabaram e quase todo o caminho foi na borda do deserto sírio.

Além das incríveis ruínas também estou conhecendo um dos povos mais simpáticos de toda a viagem.

Ainda na Turquia…

Ainda na Turquia tive de visitar a capital Ankara para tirar meu visto sírio. Fiz isso de ônibus e depois fui para Antakia, perto da fronteira com a Siria. Lá resolvi não seguir caminho até que alguns problemas do site fossem resolvidos. Passei doze dias numa epopéia cibernética trabalhandoigual gente grande. Montei novamente o projeto de uma forma que, se necessário, eu possa atualizá-lo diretamente do meu notebook através dos cyber cafés no caminho. Durante esse tempo tive de aprender a mexer com vários programas e felizmente contei com a ajuda do pessoal do Clube de Cicloturismo do Brasil que ficou conectado me ajudando. Valeu Ricardo (Parma biker), Rodrigo Telles e André Pasqualini!!

O notebook está nas últimas. Por sorte encontrei um técnico na turquia que fez uma gambiarra e ele funcionou durante alguns dias mas logo depois estragou de novo. Na Síria também não encontrei assistência técnica e resolvi eu mesmo consertar o computador. Nunca vi tanta peça. No final o nobebook voltou a funcionar mas sobraram sete parafusos e uma pecinha de plástico.

Bom, chega de papo de internet, notebook, vida virtual, etc. Voltemos à vida real que é muito mais interessante.

De Antakia pedalei oitenta quilômetros em direção à fronteira e parei num acampamento com o pessoal que está asfaltando a estrada. Foi a última experiência da hospitalidade turca. Sem conseguirmos formular uma frase me arrumaram lugar para dormir e me deram comida.

No outro dia cheguei na fronteira e a porta da Síria ainda estava fechada. Fui o primeiro a entrar no país.

Síria - língua árabe - entendeu?

Um pouco da história da Síria

Praticamente todos os grandes impérios se estabeleceram na região da atual Síria. Dentre outros aqui passaram os persas, os gregos, os romanos, os bizantinos, os árabes, os cruzados, os mongóis e, no início do Séc. XVI, os turcos otomanos que seguiram até 1918. Nesta data o país foi ocupado pela França. Em 1920 se converteu em Estado autônomo e em 1946 conseguiu a independência. Em 1958 a Síria se uniu ao Egito para formar a República Árabe Unida mas essa se dissolveu em 1961.

Cronologia dos Impérios da Antiguidade

Fonte: IFAPO & MTA&A Jordan 2000

O atual governo é uma República presidencialista (ditadura militar desde 1970) liderada pelo presidente Hafez al-Assad. O governo autoritário da Síria é famoso internacionalmente pela forte política anti-Israel. O país é o protagonista das contradições entre árabes e judeus. Os principais focos das discórdias são a água doce, a causa palestina, o petróleo e uma incalculável complexidade religiosa.

Síria reivindica a devolução das Colinas de Golã, região onde nasce o rio Jordão, ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967). Os Estados Unidos e Israel acusam a Síria de darem suporte ao grupo libanêns Hezbollah que, do Líbano, ataca o norte israelense.

Essa é uma guerra aparentemente eterna que envolve Israel representando a base anglo-americana no Oriente Médio e a Síria representando os anseios dos países árabes.

” Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.
Chico Xavier

Nas primeiras pedaladas na Síria vi muita sujeira. As cidades e estradas são feias mas logo percebi que a grande beleza do país não está aí mas nas pessoas que são uma das mais bacanas que conheci em toda viagem.
Criançada

Quase toda área da Síria é um deserto plano e apenas algumas montanhas fazem a divisa com o Líbano. A agricultura e o petróleo são as mais importantes economias. O país possui 16,6 milhões de habitantes (2001). 90% é de etnia árabe. 89,3% pratica o islamismo e 7,8% o cristianismo.

Carregando algodão

A primeira parada foi no litoral do Mediterrâneo, em Latakia. Depois de tanto tempo enfurnado na internet estava esperançoso de encontrar uma praia para nadar mas a decepção foi total. A área é poluída e a cidade é um dos maiores portos do país.

De Latakia subi uma montanha dormi no topo e no outro dia desci para o imenso e fértil vale do rio Orontes. A pedalada foi fantástica. Passei por várias ruínas, dentre elas a Afamea – Sec. II a.C., e, sem me dar conta, fiz a maior quilometragem diária até então – 130 km até Hamah.

Ônibus enfeitado

Hamah possui 17 imensas rodas d´águas que serviam para elevar a água do rio Orontes para os aquedutos. Ali fiquei impressionado com a quantidade de mulheres que usam pano preto para cobrirem toda a cara. Nem sequer tinham um buraquinho para o olho.

A beleza dessas rodas d´águas esconde um dos piores momentos da ditadura síria.
Em 1982, como represália a atentados da Fraternidade Muçulmana, grupo radical islâmico, o governo de Al-Assad matou mais de 20 mil pessoas – a maioria xiitas – e destruiu grande parte da cidade de Hamah.

Em Hamah me encontrei com um amigo quase virtual, Elias, primo de um brasileiro que me conhece apenas através do website. Perto de Hamah ele vive em uma comunidade católica e me convidou para irmos jantar com outros amigos. Durante três horas não parou de chegar comida na mesa! Elias já morou no Brasil e fala bom português. Me explicou que na Síria ninguém come com pressa e depois da refeição ninguém trabalha. Todos fazem a sesta e o horário de comércio é 9:00-13:00 e 18:00-23:00.

No outro dia fomos juntos para um casamento cristão. A arquitetura da Igreja é um pouco diferente mas a cerimônia é bastante parecida com a do ocidente. A maior diferença ficou no final. Quando o padre termina a missa todas as mulheres dão um grito. Isso ninguém conseguiu me explicar direito. Uns disseram que é grito de alegria, outros de inveja, parabéns, sufoco e por aí vai…

No caminho me encontrei com um suéco que acredita ter vivido, em sua encarnação anterior, na Síria durante as Cruzadas. Hoje ele está fazendo um levantamento de todas as ruínas e castelos do país. Seguindo seu conselho fui visitar um dos mais importantes marcos das Cruzadas, o imponente castelo Crac des Chevaliers, construído durante o Sec. XII d.C.

As Cruzadas foram expedições militares durante a Idade Média contra hereges ou infiéis. As expedições começaram em 1095, quando o Papa Urban II resolveu recuperar o Santo Sepulcro em Jerusalém. Milhares de fiéis tomaram rumo desde Roma à terra sagrada com a missão de protegerem o catolicismo que estava perdendo força no Oriente Médio, principalmente Síria e Palestina. Os cruzados foram muito além de sua missão religiosa e rapidamente se transformaram em uma grande selvageria que, em nome de Cristo, destruiu e saqueou durante 200 anos praticamente tudo que encontraram.

'Qala'at al-Hosn' ou Crac des Chevaliers

Em país muçulmano quase nunca se conversa com uma mulher na rua. Quase todas as minhas conversas foram com homens e era difícil fugir do assunto universal mulher/futebol. Por aqui todos reclamam o mesmo “-Casar é muito caro!” Para casar o homem tem de pagar para a mulher aproximadamente 20 mil U$! Eles ficavam loucos quando eu falava que no Brasil é grátis. Mas para evitar uma migração masculina para o meu país sempre deixava claro: – Agente não paga na hora mas depois, dependendo da mulher, é muito fácil ir à falência.

Como toda ditadura aqui também existe censura na mídia. É proibida qualquer crítica ao governo, presidente ou à sua família. Em Hamah tive um convite para fazer reportagem na televisão mas teria de pedir autorização para o governo. Desisti pelo pateticismo da situação. A censura também atrapalhou as atualizações do site. Na Turquia consegui colocar quase todo o site funcionando mas logo que atravessei para a Siria fazer upload ficou impossível. Todas as conexões são controladas por um servidor do governo e não é permitida a criação ou manutenção de websites sem permissão oficial. Durante as pedaladas na Síria refiz todo o álbum de fotos que em breve estará no ar.

No deserto da Síria

Segui para Homs e lá encontrei o argentino Juan Remon que viaja de ônibus com uma bicicleta na mochila e usa a magrela para rodar nas cidades. Resolvemos pedalarmos juntos para Palmyra. Em poucos quilômetros de Homs já começa o imenso deserto da Síria e, com exceção de alguns pequenos povoados e acampamentos de beduínos, vimos somente pedra e areia.

Beduínas

Palmyra

Palmyra é um oásis no meio do deserto. A água que brota ali fez da região um importante ponto de parada das caravanas que ligavam a Mesopotâmia ao Mediterrâneo e das caravanas da rota da Seda. A cidade prosperou com as taxas cobradas sobre as mercadorias e venda de água. Existem suposições de que a cidade de Palmyra existe desde o Sec. XIX a.C.

Teatro em Palmyra

Passamos o dia pedalando pelas ruínas e depois seguimos para Damasco, a capital mais antiga do mundo. O centro é, assim como todas as antigas cidades árabes, um ótimo lugar para ficar perdido. Fomos conhecer a cidade de bicicleta e acabamos passando um bom tempo batendo papo furado com uns policiais que sabiam falar inglês.

Mercado em Damasco

Escultor em Damasco

No outro dia encaramos um tour relâmpago de ônibus para o Líbano. Aproveitamos as 48 horas de visto grátis e visitamos Baalbek, passamos rapidamente por Beirute e voltamos para Damasco no mesmo dia.
Um pouco da história do Líbano.
Líbano sofreu com uma longa guerra civil (1975-1990) entre cristão e muçulmanos – os 3,6 milhões de habitantes do país são praticamente uma metade cristã e outra metade muçulmana. O enfraquecimento interno deu condições para o vizinho Israel atacá-lo em 1982. Síria interviu e conseguiu controlar a Guerra Civil. Hoje a Siria possui hegemonia sobre o Líbano e é comum encontrar textos sírios com os dizeres “Síria e Líbano – dois países e uma Nação”.

Baalbek é onde estão as maiores colunas romanas conhecidas e um templo bem preservado dedicado ao Deus Baco. Há poucos anos atrás a área estava fechada para o turismo pois era dominada pelo grupo Hezbollah.

Impressionantes colunas de 22 metros de altura
Ruínas de Baalbek - Líbano

Na rápida visita a Beirut foi possível ver um exército fortemente armado, muitos tanques de guerra e prédios destruídos por bombardeios. A capital está sendo reconstruída lentamente com apoio e estilo ocidental.

De volta a Síria…

De volta a Damasco presenciei o início do Ramadã, o nono mês do ano muçulmano. Este período é considerado sagrado e a lei de Maomé prescreve o jejum num período diário entre o nascer e o pôr do sol. Os não-muçulmanos, os idosos, as mulheres durante seus períodos e o exército estão isentos.

Comida síria

Ao contrário do que imaginava, durante esse período ninguém emagrece. Todos comem dentro das casas e convidam os amigos para os fartos jantares. Eu estou comendo e bebendo normalmente e para mim está sendo uma oportunidade única de jantar meus modestos três pratos e passar desapercebido entre os muçulmanos famintos depois de um dia de jejum.
Trajes típicos do sul do país

De Damasco Remon foi para Jordânia e eu segui pedalando para Shahba, onde existem estradas e ruínas romanas. Cheguei com o pôr do sol e não encontrei nenhum hotel na cidade. Estava procurando algum canto para armar a barraca e de repente escutei – Brasil, Brasil!! Era um dos policiais do papo furado em Damasco. Ele mora em Shahba e me ofereceu sua casa para eu dormir. Caiu como uma luva! Após uma sessão de cítara e um farto “jantar Ramadã” com a família, mostrei as fotos da viagem e o mapa mundi para os filhos e fui dormir.

Teatro em Bosra

Dia seguinte fui para Bosra aonde está um dos mais bem preservados teatros romanos do mundo. Esta peculiar construção é ao mesmo tempo teatro e forte. Este foi construído no Séc. II d.C. e entre os Sécs. VI e XXIII d.C. foi anexado uma cidadela com imensas muralhas. A cidadela foi contruída para defender e hospedar as tropas, principalmente durante o período Ayyubids.

Hoje vários grupos trabalham nas escavações das ruínas em toda Bosra. Um trabalho demorado e minucioso. Encontrei um grupo de arqueólogos italianos que trabalha há mais de 20 anos em Bosra. Além dos italianos hoje existem também grupos da Alemanha e França.

Detalhe de uma coluna reconstruída

Dar nomes de rotas históricas para os caminhos que estou percorrendo está sendo uma faca de dois gumes. De um lado parece muito interessante o vínculo com a história mas de outro deixo desapercebido muitos outros fatos que também foram importantes. Aqui na Síria, apesar de ser parte da rota da Seda, eu já poderia dizer que estou na rota das Caravanas do Império Romano, ou nas caravanas da Mesopotâmia para o Mediterrâneo, ou na rota das Cruzadas… Ou seja, é história demais para apenas um nome. Decidi então que darei nomes geográficos para as rotas e .próxima será “Nordeste Africano”. Depois da Jordânia penso em visitar o Egito e talvez Sudão, Eritréa, Etiópia,… nunca sei direito.

“Caminhante não há caminho
faz-se caminho ao andar
caminhante são tuas pegadas
o caminho nada mais…”.
Antonio Machado

Acabo de atravessar a fronteira e agora estou na Jordânia. Se vocês não encontrarem no Atlas procurem na Bílblia.

Grande abraço,
Argus

Aproveito aqui para dar as boas vindas ao nosso novo parceiro – O Laboratório de Ensino a Distância da Universidade Federal de Santa Catarina – LED-UFSC. Após o sufoco dos problemas no site veio a boa notícia do apoio que a partir de agora irá trabalhar no portal Pedalando e Educando.

Seja bem vindo!


Para saber mais:

www.syriagate.com

www.nationbynation.com/Syria

www.syrialive.net

www.bikeabout.org/resource/syr-hist.htm

www.syriatourism.org

www.archaeology.org

http://users.pandora.be/educypedia/education/archaeology.htm
www.najah.edu

www.arts.uwa.edu.au

Arab Social Science Research
www.assr.org

www.arabcin.net

www.arabaia.com

Site do partido do governo
www.albaath.com

Jornais

Diário do Governo
www.thawra.com

Diário
www.teshreen.com

Diário em inglês
www.teshreen.com/syriatimes
Outros

LED-UFSC
Laboratório de Ensino a Distância
www.led.br
Universidade Federal de Santa Catarina
www.ufsc.br
Site de contabilidade do Ricardo Camargo – Parma Biker
www.camargoeassociados.com.br

Site do próximo projeto do André Pasqualini – Expedição Tietê
www.ciclobr.com.br

Clube de Cicloturismo
www.clubedecicloturismo.com.br

Projeto de um grupo de velejadores brasileiros que pretende recolher e disponibilizar informações sobre meio ambiente e a agenda 21 ao redor do mundo
www.destinoazul.com.br

De 12 a 16 de novembro vai acontecer a Adventure Fair no Ibirapuera em São Paulo
No stand do Clube de Cicloturismo estarão expostas algumas fotos da viagem.
www.adventurefair.com.br