Etapa 1 – Relatório 9

24.ABR.2002

Ola amigos, depois do lago Titicaca segui pelo rio Vilcanota até Machu Picchu passando pelo lindo vale sagrado dos incas. Visitei várias ruínas interessantes e comunidades que vivem do turismo ou da agricultura da fértil região.

Foram vários dias descendo junto com o rio até chegar na divisa do altiplano com a floresta amazônica, local estratégico onde se encontra grande concentração de ruínas incas e o santuário de Machu Picchu, centro do império que dominou a maior cadeia de montanhas do mundo.

Depois de Copacabana segui para Yunguyo e Puno, ainda na beira do lago Titicaca. Em Puno peguei um barco para conhecer as ilhas flutuantes de Uros e a ilha de Taquile. As ilhas flutuantes de Uros são artificiais e chegam a ter mil metros quadrados, são feitas com Totora e possuem casas onde vivem as milenares comunidades de Uros. Hoje as ilhas abertas à visitação são extremamente turísticas mas é possível ter uma idéia de como viviam essas comunidades que utilizam somente esse vegetal para construir suas casas, barcos e o próprio chão de onde habitam.

Ilhas flutuantes de Uros
Ilhas flutuantes de Uros

Depois de Uros segui para Taquile, uma ilha natural que também possui uma interessante comunidade que mantém seus costumes há séculos. Ali parece que estamos fazendo uma viagem no tempo. É possível encontrar moradores que ainda usam os quipus, antigo método de memória e contabilidade. Os incas não possuíam escrita e todos dados eram armazenados com esses barbantes com diferentes nós onde é possível registrar festas, cultivos, gados e acontecimentos. Hoje Taquile é uma comunidade com uma vida muito simples sem televisão ou carros, ali todos se ajudam e não existem ricos nem pobres, são iguais, não tem polícia e entre eles não circula o dinheiro proveniente do turismo – este dinheiro é utilizado somente quando alguém necessita sair da ilha. Quando alguém morre todos moradores se fecham em algum lugar e ninguém trabalha. Um dia por ano são feitos todos casamentos que duram vários dias com muita festa.

Ilha de Taquile
Ilha de Taquile

De Taquile voltei à Puno e pela primeira vez passei mal com comida. Puno é a maior cidade que beira o lago e possui sérios problemas de infra-estrutura. O esgoto é lançado diretamente no lago e toda água consumida provém do mesmo lugar. Hoje estão fazendo um serviço paliativo de drenagem do lago para evitar o assoreamento completo da orla em frente à cidade.

De Puno deixei para trás o lago navegável mais alto do mundo e segui para Juliaca. Comecei então a descida pelo vale sagrado do rio Vilcanota. A estrada é nova, bem sinalizada, asfaltada e com acostamento. A fantástica paisagem das duas cordilheiras com o vale no meio e a história e misticismo dos incas fizeram desse trecho um dos mais interessantes de toda viagem. No caminho existem ruínas de templos, locais de armazenamento de alimentos, moradias, centros administrativos, etc. e em alguns trechos é possível ver o caminho inca original. Hoje praticamente todas essas ruínas são exploradas turisticamente.

Essa região é muito plana e várias cidades possuem a bicicleta como forma de locomoção principal. É muito comum ver “táxis-bicicleta” onde o condutor carrega na frente um banco onde cabem duas pessoas. As cidades parecem um pouco um grande parque de diversão e os cruzamentos são sempre muito movimentados e um pouco sem lei. A bicicleta que chegar primeiro tem preferência e várias vezes elas passam raspando umas com as outras.

De Juliaca desci para Pucara e no meio do caminho encontrei com Michel, um francês que veio de bicicleta do Chile e também estava indo para Machu Picchu (http://membres.lycos.fr/andesvtt/) . Estamos fazendo juntos esta etapa da viagem. Paramos em Ayaviri e depois fomos para La Raya onde dormimos na boca do Vulcão desativado (Vulcanota) e seguimos para Sicuani, Checacupe, templo de Cusipata e Urcos.

Vale Sagrado
Vale Sagrado

Passamos por San Pedro de Racchi, perto do extinto vulcão Quinsachata, onde estão as ruínas que possuíam três diferentes funções: templo para Wiracocha, templo para água e silos de armazenamento de alimentos e ponto de escambo entre os produtores. O templo erguido em memória ao Wiracocha – o Deus inca criador do universo – é uma construção feita de pedra, barro, palha e madeira e chama atenção pelo altura de sua parede central com mais de dez metros. Segundo a lenda, Wiracocha peregrinou pelos Andes dizendo: – Que obedeçam as nações, que ordeno que brotem e se multipliquem! Assim uns emergiram dos lagos, outros de fontes, covas e árvores, para receberem dele as sementes, as artes e as diferentes línguas que teriam que cultivar. Deu também uma ordem de vida falando cordialmente para que uns aos outros não se maltratassem ou se injuriassem. Os que preferiram a rebeldia ficaram petrificados em Tiwanaku, Pucara e Jauja.

Ruínas do Templo em Wiracocha
Ruínas do Templo em Wiracocha

De Urcos saímos do vale e subimos a cordilheira para chegarmos em Cuzco (3.350 m.a.n.m.) onde matei um pouco a saudade da família com as visitas da minha mãe e tia. Cuzco vem da palavra quíchua Qosqo que significa umbigo do mundo (Garcilaso de la Veja – 1609) e era formada por vários palácios, templos esotéricos, armazéns e ruas orientadas de acordo com o nascer e pôr do sol. Em novembro de 1533 o espanhol Francisco Pizarro e seu exército entraram na base do império inca conquistando Cuzco e transformaram completamente a cidade. No final de 1536 houve uma rebelião na tentativa de restaurar o império, fracassada a tentativa, Manco Inca (o número quatorze da dinastia), iniciou sua retirada em direção à selva de Machu Picchu e Vilcabamba – ordenou que destruíssem os caminhos e pontes, estratégia que lhe permitiu resistir até 1572 quando Túpac Amaru I, o último inca, foi capturado e decapitado.

Plaza de Armas - Cuzco
Plaza de Armas – Cuzco

Hoje é possível ver várias edificações coloniais construídas sobre as bases incaicas. A arquitetura espanhola foi majestosa e construiu imponentes edifícios, principalmente igrejas. Cuzco, cidade dos filhos do Sol, é o ponto turístico de milhares de estrangeiros e rota para os que desejam conhecer Machu Picchu. A cidade é uma amostra da Torre de Babel onde é possível encontrar gente de todo o mundo – israelenses (como tem israelenses!), franceses, americanos, ingleses, alemães, canadenses, belgas, suíços, argentinos, chilenos, espanhóis, brasileiros, etc.

Dentre as várias ruínas que circundam Cuzco estão Sacsayhuaman, Qenqo, Tambomachay e Puca pucara. A que mais me chamou atenção foi Sacsayhuaman, incrível construção com pedras gigantes encaixadas a ponto de não caber uma folha de papel entre elas. Segundo Garcilaso “é a maior obra que os incas fizeram para mostrar seu poder e majestade, foi a fortaleza de Cuzco, cuja grandeza é inacreditável para quem não a conhece e para os que conhecem e viram com atenção imaginam que são feitas por encantamento ou por demônios e não homens…”. Esta fortaleza começou a ser destruída em 1537 e em 1559 foi parcialmente desmontada para construir a catedral de Cuzco.

Sacsayhuaman
Sacsayhuaman

Fiquei alguns dias em Cuzco e aproveitei para despachar alguns equipamentos para o Brasil que fizeram minha bagagem diminuir de setenta para sessenta quilos.

Voltei para o vale e continuei descendo o rio em direção a Machu Picchu. Este trecho é bastante visitado por turistas que fazem o “tour do Vale Sagrado” que compreende Pisac, Chinchero e Ollantaytambo.

Pisac é um dos pontos mais estratégicos. Desde sua plataforma cerimonial é possível avistar grande parte do vale para supervisionar e administrar sua produção agrícola – o território andino é considerado como um dos oito centros de origem da agricultura no mundo.

Conhecemos o Santuário de Ollantaytambo (ou Tambo), um dos maiores complexos arqueológicos do Peru e segundo o sacerdote e historiador Bernabé Cobo (1653), no livro “Historia del Nuevo Mundo” é o local do surgimento do império inca.

“… Luego que fueron puestos (los Incas) por su padre el sol en la laguna de Titicaca, les mandó que tomasen la vía y derrotaque gustasen… Y que despedido con esto el sol su padre, caminaron la vuelta del Cuzco, probando a hincar en la tierra la barreta de oro donde quiera que paraban, y que llegando al valle de Yucay, y bajando un poco más por la rivera del río que por el corre hicieron alto en Pacarictanpu (significa dormida que amanhece) … así salieron de una cueva que está en el sobredicho asiento de Tampu, Tambo, llamado Pararictanpu por una ventana de piedra… de donde partieron al salir el sol, por cuya causa dieron aquel nombre a aquel lugar, encaminándose al valle del Cuzco…”

Todos as construções incas possuem uma grande integração com os elementos da natureza. A localização de seus monumentos não foram feitos para serem apreciados de qualquer lugar mas de locais predeterminados e normalmente situados em pontos elevados que possibilitam uma visão total do conjunto. Os aparentemente disseminados grupos de construções se integram visualmente com as montanhas formando uma intervenção harmônica onde o desenho de sua urbanização muitas vezes é relacionada com imagens de animais sagrados. O solstício de verão (22 de dezembro) e o solstício de inverno (21 de junho), Capac Raymi e Inti Raymi, são datas onde os raios solares mostram o esplendor de várias construções como traçados de ruas, aberturas nas casas, esculturas e templos que fazem jogos de luz e sombra e revelam características místicas e astronômicas dos seus monumentos.

O império inca dominou várias artes. A arquitetura ficou como marca de uma civilização que até hoje intriga a todos por sua alta tecnologia. As construções em pedra gigantescas com seus encaixes perfeitos usaram técnicas ainda hoje desconhecidas e impraticáveis para as construções contemporâneas. Os incas também dominaram os métodos de prevenção de terremotos onde colocavam sob as paredes uma base com pequenas pedras para absorverem os movimentos sísmicos.

“Nos Andes, a enorme quantidade de ecossistemas que interagem na sua geografia, unida a sua instabilidade climática, proporcionou ao longo de milênios o desenvolvimento de um conhecimento humano e um pensamento dirigido a encontrar os meios necessários para sustentar e projetar sociedades em harmonia com o incerto ritmo de sua diversificada natureza; é por isso que conceitua o mundo como um todo “vivo” e interagido onde o homem é apenas uma parte”

Fernando Elorrieta Salazar e Edgar Elorrieta Salazar

A palavra inca é um fonema que variou de Enqa a Inga e Inca; significa o Espirito, força ou energia que ordena as coisas para gerar ou produzir bem estar.

Em Ollantaytambo deixamos nossos equipamentos num hotel e seguimos com as bicicletas mais leves para o caminho inca “alternativo” que acompanha o rio até Águas Calientes, cidade mais próxima de Machu Picchu que só tem acesso de trem ou a pé pela trilha inca.

Devido aos altos preços da entrada pelo caminho inca original (variam de 180 a 480 dólares) resolvemos chegar em Machu Pichu pedalando pela trilha paralela à linha do trem. Grande parte da estrutura turística do local está privatizada e possui preços abusivos, boa parte do dinheiro que circula vai para o governo em forma de impostos e pouco se vê revertido para a população local. No caminho fomos barrados (a 20 km de Machu Picchu) pela administração do trem e fomos obrigados a utilizar o serviço da Perurail que também é privatizada e não permite que nenhum turista passe pela região sem pagar sua passagem.

De Águas Calientes subimos em bicicleta os últimos dez km até chegar na porta de Machupicchu e poder ver o mais belo dos santuários de todo o vale que ficou protegido por séculos pelo manto verde da natureza que os incas tanto cultuaram.

Machu Picchu foi descoberto por Iram Bingham em 1911 e é considerada a obra máxima da ideologia inca. Foi construída estrategicamente na divisão entre o altiplano e a floresta amazônica e está situada no alto de uma montanha que envolve uma das curvas mais sinuosas do rio Vilcanota. A cidade cujo nome significa pássaro velho ou o soberano espirito tutelar da paz dos homens é um exemplo perfeito de intervenção urbana. Sua localização e distribuição foram feitas para aproveitar ao máximo as características naturais do local. As casas, templos, praças, cultivos, etc. estão em total harmonia com seu entorno. Subimos para o ponto mais alto da região, o monte Waynapicchu, de onde se vê toda Machu Picchu e a curva do rio. No topo desta montanha existem incríveis construções de pedra assentadas em declividades que chegam a 80 graus.

A beleza de Machu Picchu contrasta com sua vizinha recém construída Águas Calientes, uma cidade sem nenhum planejamento que acabou se transformando num ponto de trem com um amontoado de hotéis e restaurantes para usufruir do incessante turismo.

Peru passou recentemente (2000) por uma grave crise de corrupção em seu governo (Fujimori) e até hoje a estrutura burocrática governamental reflete este passado. Locais como Machu Picchu possuem uma das maiores receitas turísticas mundiais e, no entanto, a população local segue com problemas de infra-estrutura e pobreza. O legado inca está sendo utilizado como instrumento turístico de enriquecimento de poucos ao invés de ser um ensinamento de convivência em harmonia entre as pessoas e a natureza.

De Machu Picchu o rio Vilcanota continua descendo a cordilheira e vai formar o rio Amazonas, atravessar o Brasil e desaguar no oceano Atlântico. Eu tomei um caminho diferente, voltei para Ollantaytambo, recoloquei os equipamentos na mochila e agora sigo em direção oeste para Nazca, subindo e descendo morros novamente.

Agora tenho um novo desafio, talvez maior que subir os Andes, conseguir uma passagem para atravessar o Oceâno Pacífico.

Um grande abraço,
Argus

“Seja você a mundança que deseja ver no mundo”
Gandhi

Para saber mais
Livros
Cobo, Bernabé
1956 (1653), Historia del Nuevo Mundo.
Dollfus, Oliver
1991, Territorios Andinos, reto y memoria. Instituto Francés de Estudios Andinos. Lima
Granadino, Cecilia
1993, Cuentos de nuestros Abuelos Qechuas, Recuperando La Tradición Oral. Lima Graf. Lima.
Garcilaso de la Veja, El Inca
S/f. (1609)
Hyslop, John
1992, “qhapaqñan, el Sistema Vial Incaico”. Instituto Andino de Estudios Arqueológicos-Petróleos del Perú. Lima.
Lumbreras, Luis Guillermo
1969, De los Pueblos, las Culturas y las Artes del Antiguo Perú. Moncloa-Campodónico, Editores Associados. Lima
Molina, Cristóbal de. “El cusqueño”
1943 (1574), Fábulas y Ritos de los Incas. Las Crónicas de los Molinas. Los Pequeños Grandes Libros de la Historia Americana. Serie I, Tomo IV. Lima.
Ponce Sanginés, Carlos
1969 a, La ciudad de Tiahuanacu. Faculdad de Arquitetura. Universidad Mayor de San Andrés. La Paz.
Sullivan, William
1999, El Secreto de los Incas, Edit. Grijalbo. Barcelona.
www.theincas.com
www.incas.org
www.fordham.edu/halsall/mod/1540cieza.html
www.incaconquest.com
www.att.virtualclassroom.org/vc98/vc_68/Mesoamerica/Inca/
www.ciudadfutura.com/misteriosincas/
www.incasgroup.com
www.peru.com
www.naya.org.ar/peru/incas.htm
www.rose-hulman.edu/~delacova/incas/collier.htm
www.pbs.org/opb/conquistadors/peru/peru.htm
www.monografias.com/trabajos4/incas/incas.shtml

Para visitar
Ilhas de Uros e Taquile:
All Ways Travel S.R.L.
www.allwaystravelperu.com
elianapauca@yahoo.com