Etapa 1 – Relatório 6

06.MAR.2002

Entrei na Bolívia. Passei por Quijarro, Santa Cruz de la Sierra, El Torno, Samaipata, Mairana e Mataral. Visitei as ruínas de um importante forte Inca e agora estou subindo a Cordilheira dos Andes em direção à Cochabamba.

Estas últimas semanas foram muito boas para o projeto. Concluí a primeira etapa brasileira e recebi a carta do Governo Federal , através do Ministro do Esporte e Turismo Sr. Carlos Melles, elogiando o projeto e pedindo o apoio dos países por onde passarei. Muito obrigado! A carta já está em minhas mãos e seguramente irá me ajudar muito no percurso. Também agradeço ao Consulado do Brasil na Bolívia que igualmente fez uma carta de recomendação.

Aproveito a leva de agradecimentos para agradecer você que está lendo e participando do projeto. Fico muito feliz quando vejo que várias pessoas estão cadastrando e enviando mensagens. A todos Muchas Gracias!

De Corumbá fui para Puerto Quijarro, na compania do Marcelo, Ísis e Fabio, amigos da casa dos estudantes. Quijarro é um povoado muito pobre que vive praticamente conectado com Corumbá (20 km de distância), é uma zona franca de livre comércio e está ligado com as outras partes da Bolívia somente através do famoso trem da morte. Com o gasoduto Brasil-Bolívia, que está sendo construído, existem planos de asfaltar o trecho Corumbá – Santa Cruz que hoje praticamente não existe. Percorri o trecho de pântano boliviano no famoso trem e passei por vários povoados muito pobres que vivem praticamente da venda de alimentos para os passageiros. Várias vezes presenciei a cena triste de pessoas vendendo animais selvagens para os passageiros – ali chegam a vender um papagaio por um dólar.

Conheci muitos estudantes de medicina brasileiros que fazem seus cursos em Santa Cruz e Cochabamba, uma alternativa para evitar as caríssimas faculdades particulares de medicina brasileiras. Em algumas faculdades particulares da Bolívia mais de 80% dos estudantes são brasileiros.

Na região existiram várias tribos indígenas e os primeiros habitantes foram os guaranis, aimarás e quíchuas (Séc. XV a.C. ). O Império Inca (Séc XIV d.C. ) dominou praticamente toda a Cordilheira até chegarem os espanhóis (Séc. XVI d.C.) destruindo toda civilização existente. Em 1825 o venezuelano Simón Bolívar conquista a independência da Bolívia que tem o nome em sua homenagem.

Hoje a Bolívia é um dos países mais pobres da América do Sul com um alto índice de analfabetismo (14,4% – 2000). Ernesto Ché Guevara (1928-1967) é a figura que teve mais influência na história boliviana do Séc. XX, apesar de ser argentino (Rosário). Ché simboliza um idealista coerente com seus ideais que mobilizaram a juventude boliviana. Conheceu Fidel Castro no México e o acompanhou na triunfante luta revolucionária cubana de 1959. Guerrilhou na Bolívia na década de 60 seguindo os ideias de libertação do imperialismo norte americano a acabou assassinado em 1967.

Em Santa Cruz de la Sierra, uma das maiores cidades da Bolívia (um milhão de habitantes) fiquei na casa dos estudantes brasileiros que conheci no trem. Santa Cruz é famosa por causa das “magníficas”, garotas que fazem concurso de beleza e envolvem todo país. As “magníficas” são tão importantes para os bolivianos que o país, com milhões de problemas de infra estrutura básica e conflitos políticos, chega a passar todo um dia televisionando desfiles e concursos de misses. Praticamente todo tipo de publicidade do país se resume em tirar uma foto com o produto e uma “magnífica” do lado.

De Santa Cruz fui para El Torno, numa estrada praticamente plana a uma altura de 350 metros acima do nível do mar. A estrada parece mais uma avenida que passa dentro de vários pequenos povoados. El Torno é o povoado que possui um mercado no meio da estrada. Ali jantei num interessante bar que serve a tradicional galinha frita com batatas. A diversão do bar é assistir às fitas de filmes bolivianos da coleção do proprietário japonês. Os filmes são passados numa televisão que fica na calçada de terra onde dezenas de pessoas ficam em pé assistindo.

O limite da Cordileira com o Chaco é muito contrastante, de repente começam as montanhas e a paisagem plana não volta mais. Toda a subida é acompanhada por paisagens formadas pelas grandes elevações e rios que correm por vales muito profundos. A viagem teve uma emoção extra com seus grandes precipícios. Quase todas estradas e ruas da Bolívia são de terra e as poucas asfaltadas possuem muitos problemas. Grande parte dos automóveis daqui são 4×4 e até mesmo a bicicleta teve de substituir o pneu de asfalto pelo de estrada de terra. Em vários trechos a estrada está parcialmente interrompida por grandes pedras que caíram e ainda não foram removidas.

Um “perrengue” me batizou logo no primeiro dia nos Andes. Após subir mais de mil metros encontrei um grande vale a poucos quilômetros das ruínas Incas de Samaipata. Estava cansado e meu joelho já me pedia para parar. Resolvi entrar no vale seguindo as placas do Resort Ashira Camping que me parecia um excelente lugar para descansar. Lá descobri que o imenso Resort estava completamente vazio, fiquei esperando alguém aparecer por mais de uma hora até perceber que eu estava completamente sozinho. Escureceu e eu já não tinha outra opção senão invadir o Resort e estender a barraca em algum canto. Entrei em um banheiro, tomei banho, fiz um macarrão para “emergências” que carregava desde o início da viagem e segui esperando. Cheguei a ficar gritando no meio do vale para ver se alguém aparecia e nada. Armei a barraca e coloquei algumas reportagens que carrego comigo na portaria com um texto tentando explicar a invasão. Logicamente fiquei todo tempo acordado e somente no meio da noite o dono chegou e pude dormir tranquilo.No outro dia o Sr. Gonzalo, dono do resort, me preparou um café da manhã reforçado e fez questão de não me cobrar nada. Valeu Gonzalo!

No início da subida da cordilheira, a 1600 metros acima do nível do mar, está o povoado de Samaipata que em quíchua significa descanso nas alturas. Samaipata possui uma das ruínas Incas mais orientais. Ela está estrategicamente situada perto da nascente do Rio Piraí (um dol milhares de afluentes do Rio Amazonas) a oeste do Pantano, a sul da Floresta Amazônica e a leste da Cordilheira Andina. Vários pesquisadores pensaram que o monumento foi feito exclusivamente pelos Incas mas no local também se encontram resquícios da cultura pré-incaica de Tiwanakuy e tribos silvícolas conhecias como Chiriguanos e Chanés.

A parte mais impressionante das ruínas é o Centro Cerimonial del Fuerte, um arenito esculpido com 200m de comprimento e 60m de largura. Recentemente foi declarada pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. A maior rocha esculpida do mundo tem diferentes desenhos, dentre eles um puma, um jaguar e uma serpente que representam força, poder e vida respectivamente.

Os Incas faziam ali o culto ao sol e à deusa da fecundidade para bons cultivos. A agricultura era a base da vida quíchua (Inca). O local também era usado como centro comercial dos Incas, Guaranis e Chanés. As tribos fizeram difrentes intervenções na estratégica região do forte, os Guaranis, antropófagos, usavam o círculo central da área cerimonial para sacrifícios humanos enquanto os Incas usavam para comemorações e reuniões de líderes. Estes viviam em uma espécie de sistema monárquico socialista onde todos trabalhavam e repartiam seus ganhos respeitando sempre seus três preceitos básicos: ama llulla (não mentir), ama sua (não roubar), ama q’uella (não ser preguiçoso). Fui para as ruínas acompanhado pelo descendente Inca e estudante de turismo Ramirez que fez uma gravação em língua quíchua para o projeto.(link para o mp3 no site)

“… os Incas contaram aos espanhóis que seus antepassados saíram de uma cova de pedra de onde foram para Cuzco*. Eram quatro casais de irmãos e irmãs onde sobreviveu apenas o casal Manco Capac e Mama Ocllo, fundadores da dinastia Inca. Por isso existem no forte quatro pequenos buracos simbolizando o mito de origem dos Incas.” Dr. Albert Meyers, arqueólogo. Sabe-se no entanto que isso é uma lenda e, na verdade, uma das bases mais importantes dos Incas foi em Cuzco (Machu Picchu) e o forte de Samaipata é uma extensão desse Império e foi ocupado posteriormente. (* mesmo caminho que faço agora)

Hoje Samaipata é um simpático povoado com muito turismo e uma interessante comunidade alemã que encontrou aí uma semelhança com seu clima. Um ciclista alemão passou por Samaipata há alguns anos e fundou uma parceria com a Alemanha destinando verbas para a escola do povoado. O povoado possui um Centro de Pesquisas Arqueológicas e Antropológicas – CIAAS, que estuda as ruínas Incas e desenhos rupestres encontrados na região.

Aqui encontrei várias coincidências. A praça central foi recentemente construída e projetada por três arquitetos que, assim como eu, se formaram na Universidade Federal de Minas Gerais. Além disso descobri que o irmão do prefeito é atleticano e vive em Belo Horizonte.

Para saber mais:
Apoyo para el Campesino Indígena del Oriente Boliviano
www.apcob.org.bo
Unidad de Turismo e Cultura da República de Bolívia
www.go.to/jucumari.bo

Um grande abraço,
Argus