Etapa 1 – Relatório 5

18.FEV.2002

Acabo de passar por locais abençoados pela natureza. A região da Serra da Bodoquena, onde se encontra a cidade Bonito, e a região do imponente Pantanal. Além das belezas naturais esse trecho tem algumas cidades historicamente interessantes como Miranda, que já foi a cidade mais importante de toda a região e Corumbá com seu porto na margem do Rio Paraguai que já foi um dos portos mais ativos do país.

A partir da serra de Maracaju a vegetação mudou muito, é um cerrado bem mais denso e com mais declives. Na serra da Bodoquena o solo é rico em calcário o que proporcionou a formação de várias grutas e rios com águas transparentes. Toda essa beleza aliada à proximidade do Pantanal fez da cidade de Bonito um grande pólo turístico que vem se desenvolvendo de uma forma organizada e com várias atitudes de preservação do meio ambiente.

Em Bonito fiquei em um albergue da juventude ótimo, tinha até piscina. Além dos passeios tradicionais da região, como a Gruta do Lago Azul, Rio da Prata, etc. a cidade também oferece um prato cheio para quem gosta de aventura, tem rafting, rapel, mergulho, off-road, vôo livre, tirolesa, etc. maiores informações podem ser encontradas através dos sites www.serraventura.com.br ou www.centraldeaventuras.com.br.

A Gruta do Lago Azul é uma gruta calcárea (com formações muito parecidas com a Gruta de Maquiné de Cordisburgo, MG) que possui um lago interno e, num pequeno período do dia, recebe um faixo de luz que deixa a água completamente azul. No Rio da Prata é possível descer boiando com uma máscara e ver os Dourados, Piraputangas e Pacus numa água cristalina. Dentre os passeios “com adrenalina” o mais interessante é o incrível rapel de 72 metros no Abismo Anhumas.

De Bonito fui para Miranda, passando pela pousada do Canto do Bambu . Nesse percurso existem várias pousadas e muitos turistas fazem dali uma base para conhecerem o Pantanal e as belezas da região de Bonito.

Nesse trecho desidratei, o sol é muito forte e bebi pouca água. O resultado foi uma febre em Miranda e três dias de cama. Depois disso comprei um galão de cinco litros de água, só pedalo de manhã e final de tarde e estou bebendo muito mais Tereré, afinal essa tradição paraguaia não se enraizou por aqui sem motivo, esse chá gelado é uma forma cultural de beber água o dia inteiro.

Miranda é a região que divide o Cerrado do Complexo do Pantanal e possui uma história muito interessante:

Por Lei Provincial de 07 (sete) de Outubro de 1871 a Vila de Miranda foi elevada a categoria de município de Miranda,…, sendo então o maior município de Mato Grosso em extensão territorial

Conhecendo Miranda História – Geografia 3. Série 2001
Celso Nicolau Albuquerque e Elcio Ojeda

Depois de me recuperar parti para o Pantanal. Esse trecho tem poucas cidades e, por sorte conheci João Carlos, dono de uma fazenda que fica estrategicamente no meio do caminho entre Miranda e Passo do Lontra. Fiz minha primeira parada aí e segui pela Estrada Parque, foi o trecho onde percebi porque o Pantanal é tão famoso. Realmente é difícil não se impressionar. O Pantanal é a maior planície alagada do Planeta e foi reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade, é uma região de fauna e flora riquíssimas. Aprendi que jacaré é bicho manso e pude até chegar perto para fotografar.

Um Lugar Adâmico

No Pantanal não se pode passar régua –
sobre muito quando chove.

Régua é existidura de limites:
E o Pantanal não tem limites.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas como a água.
Passarinhos pedras árvores já estão comprometidas com a água.
Nos brejos, de noite, o silêncio fala:
Sapo nú -tem voz de arauto
Conchas mandam recado
Camaleões conversam baixo
Largatixas pastoreiam borboletas.

Aqui, bonito é desnecessário
Beleza e glória das coisas o olho que põe.

Aqui, a elegância e o branco devem
muito às garças.

Manoel de Barros

Passei pelo Passo do Lontra e fiquei na “Cabanas do Pescador”, uma pousada sobre palafitas, onde todas as janelas e portas possuem telas para os milhões de pernilongos não entrarem. Lá fiz uma pescaria e voltamos com nove Pacus. Durante a pesca escutei o impressionante estrondo feito pelos macacos bugio que mais parece um aeroporto. O pescador Gilson Valdonado foi quem mostrou as “manhas” e também ensinou as leis de pesca que ocorrem na região. O turismo descontrolado feito pelos pescadores diminuiu muito a quantidade de peixes dos rios e hoje existem leis que limitam a pesca para que o rio possa voltar ao que era antes.

Na Estrada Parque atravessei o rio Paraguai, subi a morraria do Urucum e cheguei em Corumbá, cidade que faz fronteira com a Bolívia. Coincidência ou não foi exatamente no primeiro dia de Carnaval. No alto da cidade um Cristo Redentor, embaixo escolas de samba, do lado um rio imenso que vai até o Oceano Atlântico. Estou no Rio de Janeiro!? Será que a bússola tava errada? O carnaval de Corumbá é famoso em todo estado, sem nenhuma briga e muita animação. Procurei um lugar para hospedar e encontrei a Casa dos Estudantes da UFMS.

A Universidade Federal de Mato Grosso do Sul é a segunda melhor do centro-oeste e possui várias extensões, uma delas é o Campus do Pantanal em Corumbá.

O rio Paraguai liga a região de Miranda e Corumbá (Pantanal) ao Oceano Atlântico passando pelo Paraguai, Argentina e Uruguai, sendo navegável por toda extensão. Isso fez com que essas cidades tivessem uma ocupação muito diferente das outras pelas quais passei.

Segundo o historiador e poeta Augusto César Proença o interesse pela região começou em 1719 quando o bandeirante Pascoal Moreira Cabral encontrou ouro às margens do rio Coxim, Cuiabá. Corumbá foi fundada em 1778 a mando do Luis Albuquerque de Melo Pereira, capitão general da capitania de Mato Grosso, Cuiabá, para defender a fronteira.

A Guerra do Paraguai (1865-1870) foi o acontecimento que transformou completamente a região geoestratégica de Corumbá e Miranda. Nessa Guerra o Brasil obteve o título de primeiro país no mundo a utilizar arma biológica, lançando cadáveres com cólera no rio Paraguai e disseminando a doença no país inimigo.

Vencida a Guerra a região tornou-se entreposto comercial e chegou a ter 25 bancos estrangeiros, foi a época do apogeu econômico (aprox. 1910). A riqueza atraiu muitos estrangeiros que chegavam do Atlântico, Argentina, Uruguai e principalmente Paraguai através do rio. O reflexo desse apogeu e miscelânea cultural pode ser visto na exuberante arquitetura eclética do casario do Porto em Corumbá.

Em 1914 foi inaugurada a estrada de ferro Noroeste Brasil, que ligou o sul do estado de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul) à São Paulo. Essa estrada substituiu o eixo fluvial de Corumbá até o Atlântico e trouxe um período de decadência para a cidade. As antigas construções estão hoje em péssimo estado de conservação e estão vislumbrando novas utilizações para se adequarem às demandas resultantes do turismo. Hoje a Secretaria de Turismo de Corumbá trabalha com o projeto Monumenta que trata da revitalização do casario do Porto.

Para saber mais sobre Corumbá leia o trabalho do historiador Ricardo R. Leite Filho: Corumbá – Breve Considerações Sócio-Econômicas

Base de Apoio à Pesquisa no Pantanal
www.ucdb.br

Toda região que passo agora já foi encoberta pelo antigo mar de Xaraés, prova disso são os fósseis de Corumbela sp, um antigo organismo marinho que pode ser encontrado na mina do Urucum.

O estado do Mato Grosso do Sul foi criado na ditadura, quando Mato Grosso foi dividido em dois: Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A divisão causa polêmica até hoje e ainda é tema de discussões nas tvs e jornais locais. Existe uma lei para mudar o nome do estado para Estado do Pantanal. Eu gostei da idéia, fica bonito e exalta uma grande beleza que possuem.

Agora vou para Bolívia, depois de pedalar 2400 km no Brasil. Farei o trecho Puerto Quijarro até Santa Cruz de la Sierra com o famoso “Trem da Morte” pois não existe estrada e de lá começo a grande subida dos Andes, onde chegarei a locais com mais de quatro mil metros de altitude.

Um grande abraço e até a próxima,
Argus