Etapa 1 – Relatório 3

02.JAN.2002

Ola amigos! Feliz ano novo com muita saúde para todos Atravessei a importante e belíssima Serra da Canastra, Parque Nacional onde nasce o Rio São Francisco. Foram três dias de muitas pedaladas e “empurradas” para subir os morros da região!

Criado em 1972, o Parque Nacional da Serra da Canastra, com uma área de aproximadamente 71 mil hectares e altitudes que variam entre 900 e 1.496m, tem como objetivo maior a preservação de espécies em extinção da flora e fauna e proteção dos seus recursos hídricos. O parque situa-se no divisor de águas entre as grandes bacias do rio Paraná e do rio São Francisco.

Segundo o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) os maiores problemas do parque são as queimadas que hoje diminuiram muito por causa da brigada anti-incêndio formada por vinte e um bombeiros. Há poucos anos, antes da formação da brigada, um incêndio chegou a queimar 70% do parque.

Com autorização do IBAMA dormi dentro do parque e, apesar da beleza do lugar, o primeiro dia de pedalada foi horrível. Chegando na nascente do São Francisco a bicicleta estragou e o local que pretendia chegar em uma hora só foi alcançado depois de cinco horas. Cheguei à meia noite na parte alta da cachoeira Casca D’anta empurrando a bicicleta com muita chuva e pouquíssima visibilidade. Muito cansado dormi em um banheiro onde improvisei uma comida com queijo, rapadura e o chá de sassafrás que Chico Chagas me presenteou.

No outro dia segui para o vilarejo de São João Batista, pedalando pelos campos rupestres, vegetação predominante, e alguns cerrados e matas ciliares. Lá dormi e comi bem para compensar o cansaço do dia anterior. Depois fui em direção à portaria oeste do parque. No meio do caminho encontrei um morador local, Sérgio, que sugeriu que eu fizesse este trecho ao norte do parque, onde ele mora. Aceitei a sugestão e fui com ele fazendo trilhas e caminhos quase impossíveis para quem não conhece bem a região.

Esta região, Cachoeira da Boa Vista, praticamente não possui telefone, estradas nem luz mas possui muita tranquilidade. Todos comem muito queijo e tomam café moído na hora, tudo produzido ali. Acostumados com a simplicidade vivem em casas pequenas, normalmente perto de algum riacho, com plantações para subsistência e gado para o leite e transporte.

Segui para Desemboque por fora do parque, atravessando vários riachos e pedalando em estradas de terra onde poucos 4×4 passariam. O parque neste trecho é uma chapada monótona e a dica do Sérgio realmente valeu. Por fora do parque – parte de baixo – é possível ver toda a serra que se ergue quase verticalmente, característica que deu a ela o nome de Canastra, lembrando uma cesta larga de madeira.

A vila de Desemboque é historicamente muito importante pois foi o berço da civilização do centro oeste. Lá foi encontrado ouro em 1740 e em 1763 foi construída a sua primeira Igreja, a Matriz da Nossa Senhora do Desterro de Desemboque.

Homens de extrema bravura desterrados do seu próprio mundo fundaram no sertão da farinha podre a capela da Nossa Senhora do Desterro dando início ao povoado de Desemboque – Marco inicial da colonização do Brasil Central.

Texto escrito em um muro na estrada para Desemboque

A vila é hoje distrido de Sacramento com duas Igrejas, duas escolas e não mais que trinta casas. É de lá o nosso grande ator Lima Duarte, famoso Sassá Mutema.

Em Desemboque encontrei os Foliões de Reis “Embaixadores da Serra da Canastra”. Nessa época é muito comum encontrá-los fazendo suas folias e benzendo as casas pelas estradas. Resolvi ficar mais um dia para acompanhá-los e conhecer um pouco mais sobre essa nossa festa folclórica.


Download da música em mp3

A Folia de Reis é uma releitura dos três reis magos no nascimento de Jesus Cristo. A pedido de um”festeiro” um grupo se reúne com seus instrumentos musicais e saem por vários dias andando pelas estradas, parando e cantando nas casas onde são recebidos. Vai à frente o “ponteira” que anuncia a chegada dos foliões e marca o lugar para as refeições e pouso dos companheiros. A cada casa visitada a bandeira com a imagem dos três reis, carregada pelo “alfer”, abençoa o local e recolhe a oferta que pode ser dinheiro, comida, bebida, etc. A última casa visitada é a do “festeiro” que recebe todos da região com uma grande festa e muita música. Cada grupo de folião possui uma cor característica e costuma sair nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Uma das maiores festas de folia ocorre dia seis de janeiro, dia de Reis, em Sacramento e também várias outras cidades de Minas.

Deixei a folia e segui para Uberaba, passando por Peirópolis, onde foram encontrados ossos de dinossauros e foi construído o Museu Paleontológico de Peirópolis. O museu é bastante interessante mas o atendimento deixa a desejar, não tinha ninguém para dar informações ou entregar algum folheto. Tirei uma foto com a réplica de um dinossauro e segui viagem.

Passei o Natal em Uberaba com meu melhor presente de todos, a companhia da minha família que viajou até lá para festejarmos juntos.

O trecho próximo a Uberaba é bem plano e é um dos locais de maior aproveitamento agrícola do país. Uberaba e Uberlândia são dois grandes pólos de tecnologia agropastoril, com excelentes universidades e alto padrão de qualidade de vida.

Depois de um bom descanso natalino segui margeando o Rio Grande em direção ao Mato Grosso do Sul. Passei por Planura, Itapagipe e São Francisco de Sales que coincidentemente comemorava 39 anos de emancipação.

Minas Gerais, apesar de não possuir costa marítima, possui mais margem com água que os estados litorâneos. É o estado com o maior water front do país e por isso é também conhecido como caixa d’água nacional.

A região do Rio Grande que estou percorrendo era ocupada pelos ferozes índios “Bororos” que foram totalmente dizimados.

Expulsos os ‘Bororos’, as autoridades introduziram no Triângulo Mineiro os índios ‘Caiapós’, amigos dos portugueses e dos brancos para protegerem os transeuntes que vinham de São Paulo e se dirigiam a Goiás

Pe. José Nunes em HISTÓRIA RELIGIOSA E POLÍTICA DE SÃO FRANCISCO DE SALES – MG (1996)

Acredito que a palavra “amigo” utilizada no livro do Padre José Nunes contenha algum excesso de inocência afinal hoje também os “amigos” Caiapós já não existem mais.

Até as próximas notícias do Mato Grosso do Sul.

Um grande abraço,
Argus Caruso Saturnino

Obs: O projeto Pedalando e Educando está “ajustando os ponteiros” e em breve estaremos com o site sendo atualizado aproximadamente de duas em duas semanas com fotos, textos e mapas. Felizmente esta fase de adaptação coincidiu com as férias escolares e esperamos que logo no início do próximo ano letivo o site esteja funcionando plenamente.