Etapa 1 – Relatório 2

14.DEZ.2001

De Pontinha, MG fui para a Serra da Canastra passando em vários vilarejos e cidades interessantes: Papagaios, Pitangui, Conceição do Pará, Bom Despacho, Arcos, Lagoa de Inhuma, Piumhi, Cabrestos, Vargem Bonita e São Roque de Minas.

A região de Pitangui é muito importante por sua história na época da escravidão. O próprio nome da cidade refere-se à abundância das pepitas de ouro encontradas no local. Pitangui é a sétima Vila mais antiga de Minas Gerias, precedida por Mariana, Ouro Preto, Sabará, São João Del Rei, Caeté e Serro. Teve seus primeiros exploradores em 1709 e foi elevada a Vila em 1715. Lá as histórias de Joaquina de Pompéu e Dona Maria Tangará, as duas senhoras mais poderosas da antiga Vila, são misturadas com lendas e causos. Dizem que o marido de Tangará elogiou os dentes de uma escrava e no dia seguinte toda dentição lhe foi servida no café da manhã. A cidade tem um rico acervo de arquitetura de fins do Séc. XVIII e, apesar da precária manutenção dessa riqueza, a prefeitura possui alguns projetos de restauração do seu acervo.

Anna Maria, a Secretária da Cultura da cidade, me ofereceu todo apoio e dados para pesquisas, além da hospedagem na Pousada Vila do Ouro que me repôs as energias para continuar a pedalada. Obrigado Pitangui!


Os bandeirantes da região de São Paulo atravessaram a vasta zona entre a Serra da Matiqueira e a cabeceira do rio São Francisco, e notaram que os leitos e os bancos de vários rios e riachos que por ali corriam continham traços de ouro aluvional em pequenas quantidades visíveis. A ação milenar das chuvas tinha roído os filões de outro das rochas e os havia depositado nos rios, no fundo dos vales e nas depressões das montanhas. Sob as camadas de areia, terra ou argila, o pedregoso subsolo oferecia pepitas de ouro, fácil de extrair do cascalho de quartzo; os métodos de extração tornaram-se mais complicados na medida em que se foram esgotando os depósitos mais superficiais. A região de Minas Gerais entrou assim, impetuosamente, na história: a maior quantidade de ouro então descoberta no mundo foi extraída no menor espaço de tempo.
… Ao longo do século XVIII, a produção brasileira do cobiçado minério superou o volume total do ouro que a Espanha tinha extraído de suas colônias durante os dois séculos anteriores. Choviam os aventureiros e os caçadores de fortuna. O Brasil tinha 300 mil habitantes em 1700; um século depois, no final dos anos do ouro, a população tinha-se multiplicado onze vezes. Não menos de 300 mil portugueses emigraram para o Brasil durante o século XVIII.

Eduardo Galeano – AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA

Apesar da colonização portuguesa o nosso ouro foi praticamente todo enviado para Inglaterra. Em 1703 os portugueses assinaram o Tratado de Methuen com os ingleses abrindo o mercado de Portugal e suas colônias às manufaturas britânicas. As manufaturas inglesas eram pagas com o ouro do Brasil e com o passar dos anos a Inglaterra impôs várias leis para travar o desenvolvimento brasileiro. Em 1715 foi proibido o funcionamento de refinarias de açúcar; em 1729 foi declarado crime a abertura de novas vias de comunicação na região mineira; em 1785 foi determinado o incêndio aos teares e fiadores brasileiros. Um tratado que impulsionou a industrialização inglesa às custas da exploração do Brasil e dos escravos africanos.


Participei da reinauguração do Santuário da Nossa Senhora da Conceição, construído em 1717 a cinco quilômetros de Pitangui. A reforma foi feita para a festa de romeiros que ocorreu dia 10 de dezembro, reunindo milhares de devotos da Virgem de todo o país. Não fiquei para a festa mas o pouco que pude ver foi muita cachaça, latas e plásticos jogados por todos os cantos, principalmente na margem do rio Pará. Precisa muita reza para perdoar tamanho desafeto pela natureza.

Saindo da histórica região do ouro segui para as vastas plantações de café e cana. Local de terra roxa, encontrada também no norte do Paraná e oeste paulista, terra de grande fertilidade que resulta da decomposição do basalto. Nesta época é comum muita chuva no clima tropical úmido mas para minha sorte e azar dos agricultores tive duas semanas de muito sol.

Sempre evito grandes estradas de asfalto mas foi inevitável percorrer uma parte da BR 262, entre Bom Despacho e Arcos. Dali segui para Piumhi, parando no meio do caminho na fazenda do “Marquinhos do Alaonte” ao lado da Lagoa de Inhuma. A região tem poucos declives e, acima dos pequenos morros, foi possível enxergar longe a serra da Pimenta. Com o baixo ruído produzido pela bicicleta, é possível ver diversos animais, toda a viagem foi acompanhada de muitas garças, gaviões, pica-paus, maritacas, anus-brancos, sariemas, marrecos, perdizes, codornas, pombas-de-bando, capivaras, tatus, pacas, lontras, quatis, macacos e micos. Na região também era comum avistar o famoso tamanduá-bandeira que não encontrei e está em extinção.

A população desta região é extremamente hospitaleira e toda parada nas casas e fazendas de beira de estrada era acompanhada com cafezinho, bolo de fubá, pão de queijo, etc. sempre na beira de um fogão a lenha com muita conversa .

Além da comida oferecida pelos moradores locais, a estrada está recheada de mangueiras carregadas que me ofereciam um lanche fácil e saudável.

Passei por Iguatama, segunda cidade banhada pelo Rio São Francisco. Lá uma grande carranca recém esculpida homenageia os barranqueiros do importante rio.

Fisionomia leonina usada na proa das embarcações do barranqueiro do RIO SÃO FRANCISCO.
Tem por finalidade espantar os maus espíritos e proteger as moças dos ataques sexuais do ‘caboclo d’água’.
Foi usada pelos índios maracá amarrado nos barcos conduzindo querreiros ao combate.
Dentro de casa aumenta a curiosidade e facilita os negócios.
Construída em madeira Pequi, peça única – mede 510 cm pesa 7.710 kg

Esqueci de trazer alguma música. Isso está sendo bom, me acostumei com os sons dos animais e, quando vem algum carro, já escuto de longe, dando tempo de me proteger. Acho que os últimos seis meses trabalhando com construção em São Paulo me ajudaram a valorizar o silêncio…

Apesar de existirem alguns fazendeiros inconscientes, a população, de uma forma geral, está melhorando muito seus hábitos de preservação da natureza. Encontrei várias gaiolas vazias e apenas alguns senhores de mais idades ainda mantém este hábito antiquado de prender pássaros. Hoje vê-se mais pessoas alimentando e protengendo os animais livres e, principalmente as crianças, estão cada vez mais conscientes de suas responsabilidades com a preservação de nossa fauna e flora.

Passei por Piumhi e fiquei maravilhado com o trabalho da prof. Maria Serafina de Freitas, uma senhora de 85 anos cujos 65 últimos foram dedicados à educação. Hoje ela faz um trabalho voluntário com cerca de 300 crianças através da APROMIP, Associação de Proteção à Maternidade, Infância e Adolescência de Piumhi. Lá todas as crianças recebem almoço, reforço escolar, atividades artísticas e, principalmente carinho. Tudo isso mantido por seus ex-alunos (praticamente todos 30 mil moradores da cidade). A cidade não tem crianças na rua – absolutamente nenhuma! Todos preferem dividir o dia entre a escola e a APROMIP. Uma associação não governamental que serve de exemplo para o que deveria ser a nossa vergonhosa FEBEM Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor. Essa senhora muito lúcida, desenvolveu um método de alfabetização através do seu livro “O circo do Carequinha”, que ganhou vários prêmios e chega a alfabetizar crianças em até vinte dias. Parabéns Maria Serafina! (Para conhecer mais acesse: www.apromip.com)

Passei pelo povoado de Campinópolis, conhecido por “Cabrestos” e segui para Vargem Bonita que comemorou 48 anos coincidentemente no dia que passei por lá. A festa teve Folia de Reis, Violeiros, churrasco e cervejada mas a maior concentração ficou mesmo no conjunto que veio de Divinópolis para animar a cidade.

Vargem Bonita é a primeira cidade banhada pelo Rio São Francisco e também a primeira a poluí-lo. É impressionante como em pleno Séc. XXI ainda existam cidades que não possuem uma estação de tratamento de esgoto. A água doce é o bem mais valioso que o Brasil possui e será a grande impulsionadora para o desenvolvimento turístico nacional. Apesar de uma conscientização unânime sobre a importância de nossas bacias hidrográficas ainda estamos distantes da situação ideal de manejo destas áreas. É fundamental que esta consciência saia do papel e torne-se realidade. Poluir um rio, além de biologicamente inaceitável, é economicamente uma estupidez.

Segundo a prefeitura já existe um projeto para tratamento do esgoto e revitalização da mata ciliar. Vamos torcer para que logo possamos chegar em Vargem Bonita e tomar um banho em águas limpas do velho Chico.

Atualmente 14 milhões de pessoas dependem das águas da bacia do São Francisco. A pequena nascente na Serra da Canastra dá origem a um rio que percorre cerca de 3.160 quilômetros, passando por cinco estados brasileiros, antes de desaguar no Oceano Atlântico, entre os estados de Sergipe e Alagoas. Existe uma Campanha para transformar o São Francisco em Patrimônio Mundial, maiores informações podem ser encontradas no site www.aguasdovelhochico.com.br .

Hoje estou em São Roque de Minas. A prefeitura e o Ibama www.ibama.gov.br estão me dando total apoio e amanhã devo começar a travessia do Parque Nacional da Serra da Canastra. Ontem conheci o escultor Chico Chagas que mora em uma casa centenária afastada da vila e faz carrancas, cachaça, queijo e conta muitos casos. Me presenteou com algumas raízes e folhas para fazer chás medicinais.

Aproveito para agradecer todos que estão me ajudando. Além das várias novas amizades ao longo do caminho também agradeço a todos que durante o complexo momento de elaboração do projeto me apoiaram. Em especial agradeço a patrocinadora Cultura Inglesa e os apoios BHZ Arquitetura, Atex-Lajes nervuradas, SOL-serviços on line, Prudential Bradesco – seguro de vida, Auge Design, Aliança Francesa e Rotary Clube. Também agradeço todas as escolas que se cadastraram, demonstrando interesse pelo projeto.

A próxima etapa será atravessar a Serra da Canastra e seguir o Rio Grande.

Um grande abraço, Argus