Etapa 1 – Relatório 1

Olá amigos, Há dois dias sai de Cordisburgo, MG, em direção oeste, para chegar na Cordilheira dos Andes e percorrer as Rotas Incas, completando a primeira etapa da Volta ao Mundo de Bicicleta.

Antes de começar a viagem passei um ano trabalhando muito no projeto Pedalando e Educando e consegui parcerias muito boas para fazermos juntos desta viagem um material didático sobre a História, Geografia e o dia a dia dos locais visitados. Espero que vocês gostem e aprendam um pouco viajando comigo.

O amigo velejador Amyr Klink tem uma frase que adoro: “O pior naufrágio é não partir”. Felizmente esta difícil etapa já ocorreu.

Escolhi Cordisburgo por ser a terra de meus ancestrais, terra do importante escritor Guimarães Rosa, da Gruta de Maquiné e também terra da abóbora. E ninguém melhor para descrever esta pacata cidade do sertão mineiro que o próprio Guimarães:

Creio que minha vida não é muito rica em acontecimentos. [Tenho] uma vida completamente normal.

Nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim sim, de muita importância. O meu burgo é bem Minas, Brasil de dentro, no rochedo do osso, na aguinha de coco! Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta de Maquiné, milmaravilha, a das Fadas.

O lugar se chamou Vista Alegre, antes que o padre João de Santo Antônio lá fosse levantar ao Sagrado Coração de Jesus um templo, naquele mistério geográfico e fez-se o arraial, a que o fundador chamou de “Burgo do Coração”. Só quase coração. Nunca vi, como ali, chuvadas mais fortes, nem mais belas. E quem lá nasceu tem de guardar, por toda vida, uma concepção mágica do Universo. Além disso, em Minas Gerais, sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto tranportado para esse mundo, Cordisburgo. E este pequeno mundo sertão, este mundo original e cheio de contrastes, é para mim o símbolo, diria mesmo o modelo de meu Universo. Assim, o Cordisburgo germânico, fundado por alemães, é o coração do meu império suevo-latino.

Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, comentando, perguntando, mandando, comandando, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Acho que na vida de criança existe um excesso de adultos invadindo. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e, nem mesmo eu, ninguém sabia disso. Gostava de isolamento, de estudar sozinho e de brincar de Geografia: de prender formiguinhas, em ilhas que eram pedras postas num tanque raso e, unidas por pauzinhos, pontes para formiguinha passar, de armar alçapões para apanhar sanhaços e depois tornar a soltá-los: uma maravilha. Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de carro. Pena era não dispor de tinta para desensabugar um boi verde. Aproveitava um fiozinho d’água, que vinha do poço das lavadeiras, junto à cisterna, e mudava-lhe duas vezes por dia o curso, fazendo de Danúbio ou de São Francisco, com todas as curvas dos ditos, com as cidades marginais marcadas por maitacas de Nhô Augusto Matraga, no quintal. Um dia ainda hei – de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos. Havendo imaginação, é uma boa escola.

Papai era comerciante, homem muito rigoroso. Quando eu era menino me levava prá caçar com ele. Eu avistava a caça e gritava por papai. Ele vinha correndo e a caça fugia. Um dia papai desconfiou que eu gritava de propósito para que ele não pudesse matar os bichos e nunca mais me levou.

Quando era garoto pensava que era rico. Lá em Cordisburgo eu era. Mas quando precisei ser rico… cadê?

Tempo bom, de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar histórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem.

Organizada por Neuma Cavalcanti – do IEB (USP)
Gentilmente cedida por Calina Guimarães (Museu de Guimarães Rosa)

Sai de Cordisburgo abençoado pelas chuvas de verão. Escolhi passar somente por pequenas estradas, preferencialmente de terra, e cheguei em Pontinha. As estradas de terra em alguns momentos pareciam rios. A roda da bicicleta ficava um palmo debaixo d’água. O dia inteiro foi uma variação de chuva e sol.

Pontinha é uma vila formada pelos herdeiros do lendário escravo Chico Rei e ainda mantém a tradição da África. Nada mal para quem está viajando a procura de história…

Antonio Joaquim Barbosa Mascarenhas escreveu em 1975 um pequeno texto sobre Pontinha. Através de seu Carlos e dona Eurisa, líderes da comunidade, tive acesso ao texto e muitas histórias.

A pesquisadora Agripa de Vasconcelos conta sobre a captura desta família no Congo:

Enquanto gozavam da alegria de uma festa em comemoração à vitória de uma batalha, o reinado de Galanga, foi cercado por caçadores de escravos portugueses, que captaram quatrocentas pessoas, entre homens, mulheres, crianças e soldados, inclusive o rei Galanga e seu filho Muzinga.

Foram transportados até o Brasil pelo navio negreiro Madalena. Segundo o Vaticano os portugueses não poderiam transportar pagãos em seus navios. Assim apressadamente chamaram o padre André Paiva, que batizou todos os homens com o nome Franciso e as mulheres Maria.Durante a viagem, por problemas com a navegação, foram lançados ao mar cerca de duzentos e cinquenta deles.

Cinquenta destes escravos foram conduzidos para Ouro Preto pelo Major Augusto de Andrade Góis e seu filho Eleutério. Logo o major percebeu a liderança que Galanga exercia sobre seu povo e o batizou de Chico Rei.

Estes escravos se mantiveram unidos e, após a abolição da escravatura, aproximadamente quinze deles seguiram de Ouro Preto a Diamantina, atraídos pelos diamantes, e esbarraram nas cercanias de Pompéu aproximadamente em 1780. Por serem católicos, seu chefe procurou se aconselhar com o vigário da Igreja, o Padre Moreira, que os orientou para comprarem seiscentos alqueires na região. A terra seria de inalienabilidade familiar, ou seja, todos da família poderiam usar as terras mas nunca poderiam vendê-las.

Hoje a vila é formada por mais ou menos 900 pessoas – todos descendentes de escravos vindos do Congo. O pequeno povoado se orgulha por suas mulheres nunca terem se misturado com nenhum homem que não seja da comunidade, o que dá à vila a peculiaridade racial. Os documentos das terras se perderam e hoje são donos das mesmas através da Lei do Usocapião.

Infelizmente poucos dali cultivam a memória dos ancestrais. Vivem com certas dificuldades e em habitações precárias, com poucos empregos disponíveis, ora extraindo o minhocuçu para vender aos pescadores, ora trabalhando nas plantações de eucalipto, nas catas de cristais, nas pedreiras de ardósia, nas fazendas ou por conta própria, com criações e plantações.

O local é famoso pelo Congado, de onde são herdeiros diretos. Segundo seu Carlos as festividades não têm dia certo mas são mais frequentes entre julho e outubro.

De Pontinha vim para Papagaio (maior produtor de pedra ardósia do Brasil e segunda do mundo depois da França). A viagem foi toda em estrada de terra com muito sol. Pela manhã passei pela Lagoa Dourada e depois por uma grande plantação de Eucalipto onde todas as estradas são iguais e tive de utilizar várias vezes a bússola para me orientar. Lá batizei a bicicleta e minha perna com um belo tombo. Foi quando percebi que havia esquecido meu kit de primeiros socorros. Providenciei um curativo e, para minha surpresa, depois de pequenos dois quilômetros avistei uma fazenda com a placa “Fazenda Dr. João”. Dr. João, médico de Belo Horizonte, tinha chegado há alguns minutos e foi quem me arrumou um curativo, água gelada e algumas mangas. Caiu do céu!

Daqui sigo para a nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra.

Um abraço e até a próxima!
Argus