Etapa 6B – Relatório 2

Brasil – Recife a Salvador

Olá amigos,

Estou realizando mais um sonho – conhecer todas as praias do maravilhoso litoral nordestino. A viagem está ótima, muito sol, pouca chuva e vento a favor.

De Pernambuco desci até a Bahia passando por Alagoas e Sergipe. Agora é alta estação, estou pedalando diretamente na areia da praia e vendo uma mistura perfeita de muitas praias desertas e algumas praias agitadas e cheias de gente bonita. A diversão é ficar desviando das ondas – o olho esquerdo vai navegando e o direito pedalando – numa areia fina entre o mar e um coqueiral infinito.

Modéstia à parte, o Brasil é lindo demais! Mas por trás de toda essa beleza cenográfica, existem os bastidores de muita pobreza e problemas.

Um pouco sobre o Nordeste brasileiro…

O Nordeste brasileiro é a região com o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano brasileiro (IDH) . Em Pernambuco, um quarto da população é analfabeta. Alagoas detém o recorde brasileiro de mortalidade infantil – a cada mil crianças nascidas vivas, 64,4 morrem antes de completar 1 ano. Isso é o reflexo, em escala nacional, da nossa terrível má distribuição de renda.

O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva nasceu no Nordeste e, assim como muitos outros nordestinos, mudou-se para a grande São Paulo em busca de uma vida melhor. Lula conseguiu, mas a grande maioria acaba vivendo nas favelas em péssimas condições e aumentando a percentagem de desemprego das grandes cidades.

A história do Nordeste é muito marcada pela chegada e exploração dos colonizadores . Por aqui estiveram portugueses, espanhóis, holandeses e franceses, todos roubando os recursos naturais e explorando a mão de obra indígena e escrava africana. Além da exploração, esses países fizeram também a colonização cultural, principalmente através da didática deturpada que é ensinada nas nossas escolas. Até hoje idolatra-se heroicamente os feitos do banditismo que foi essa invasão. Já a colonização econômica ficou por conta dos ingleses que eram os grandes beneficiários do mercantilismo colonial.

Há séculos a cana-de-açúcar é uma das principais economias da região. Uma das usinas que vi era uma Casa Grande e Senzala colonial, nela trabalham hoje os descendentes indígenas e africanos e o dono é um deputado branco que vive em Recife.Ou seja, a situação econômica e social não mudou muito e as oligarquias e o coronelismo continuam travando o real desenvolvimento do povo.

Mas Pernambuco está mudando seu perfil econômico e se transformando em grande centro de serviços com o comércio e o turismo. O setor representa mais de 50% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. A antiga monocultura da cana-de-açúcar começa a dar lugar a plantações de rosas, gladíolos e crisântemos, na zona da mata, e também à fruticultura irrigada, sobretudo na região de Petrolina, onde se produz uva, manga, melancia e banana.

Alagoas é o maior produtor de cana do Nordeste, com cerca de 28 milhões de toneladas, só fica atrás de São Paulo no ranking nacional. Quase 90% da exportação do estado sai dos canaviais, 75% em açúcar, 17% em etileno. A cana, a criação de gado e a extração do pau-brasil foram os principais fatores do desmatamento da costa. 60% da mata Atlântica foi destruída pelos portugueses nas primeiras décadas de colonização.

“No início da colonização, a mata Atlântica cobria 15% do território brasileiro. Era uma área de floresta superior a 1.290.692 quilômetros quadrados, que se estendia do norte ao sul da costa litorânea, por 17 estados. Atualmente há somente 90.438 quilômetros quadrados da mata original (7% do total), que se encontram sob ameaça permanente.” Almanaque Abril

A partir dos anos 1960 a economia nordestina começou a se diversificar beneficiada pelos programas da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste ( Sudene ). Mas a corrupção exagerada culminou na sua extinção em 2001 – A Sudene fechou e os ladrões continuam soltos. Hoje o governo estuda sua reabertura com uma “blindagem anti-corrupção”.

Em contraste com os Incas, Maias e Astecas, os indígenas brasileiros não desenvolveram uma civilização centralizada com construções monumentais. Restaram poucas evidências de suas culturas e pouco sabemos sobre o real extermínio que foi feito durante a invasão portuguesa. Aqui no Nordeste é possível identificar os indígenas através de suas fisionomias e habitações mas quase todos já estão modelados para a sociedade e pouco se vê de uma comunidade tribal. As interferências religiosas, primeiramente marcadas pelo catolicismo e hoje pelas mãos inescrupulosas de pastores mercenários são grandes fatores dessa crescente aculturação do povo nativo.

A arqueóloga brasileira Niède Guidon ganhou fama como voz isolada no mundo das ciências. Enquanto os estudos internacionais mais respeitados dizem que o homem chegou à América há 12.000 anos, Niède quer convencer a sociedade científica de que, pelo menos no Piauí, onde ela faz escavações, o homem esteve há 50.000 anos. Em suas últimas conferências, Niède passou a defender uma teoria ainda mais incrível. Agora, ela diz ter reunido evidências de que o homem já habitava o Nordeste brasileiro há 100.000 anos.

Sair de Recife foi difícil e não parar nos vários paraísos do percurso também está sendo um grande desafio. A paz, a segurança e a hospitalidade estão me impressionando. Obrigado a todos que estão me ajudando na rota!

Enquanto eu pedalava nessa tranqüilidade, do outro lado do mundo o inacreditável Tsunami destruiu várias regiões onde há pouco tempo eu estava pedalando. Muitas pessoas que eu conheci morreram e milhares sofrerão eternamente com esse desastre natural. Deixo aqui minha condolência para esse povo e peço para que, se você ainda não fez nada para ajudá-los, por favor faça.

Várias vezes me senti um extra terrestre com a bicicleta na areia. Com exceção do companheiro Petrinta que encontrei em Recife, não vi mais nenhum cicloturista. Essa excentricidade está me proporcionando conhecer todo o tipo de pessoas e me divertir com algumas perguntas surreais que surgem:

– Você dorme?

– Você come?

– É promessa?

– Conheceu a natureza?

E quase sempre têm dificuldade de entender a viagem…

– De onde você vem?

– Estou fazendo uma volta ao mundo.

– A hã…

– São três anos de estrada.

– A hã…

– Vinte e oito países.

– A hã…

– Agora estou vindo de Recife.

– Nossa! De Recife! Mas Recife é longe demais!

Papo vem, papo vai e várias vezes me convidam para experimentar as comidas típicas – fava, rabada, feijoada, mão de vaca, buchada, chambaril, sarapatel, tapioca e muita água de coco, manga, caju, mangaba, cajá, etc. Além dessas delícias, aqui também estou matando a saudade do nosso glorioso PF, o prato feito, como o nome diz, um prato popular que já vem servido com arroz, feijão, carne e salada. Também estou tendo muitos convites para dormir. Já fiquei em casas, restaurantes, acampamentos, redes, praias, pousadas, etc. O clima tropical e as noites sem chuva fazem com que qualquer lugar ao relento fique confortável.

As escolas estão de férias e consegui fazer apenas uma palestra no último dia de aula na cidade histórica de Nazaré em Pernambuco. Conversei com muitos professores no percurso e confirmei a mesma situação caótica de ensino que vi em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Quase nenhuma escola pública possui computador e muitas sequer possuem telefone. – Nossa escola não tem nem orelhão! Me falou uma professora alagoana. Infelizmente, por falta de computador na educação brasileira, o site do projeto Pedalando e Educando ainda está distante dessas escolas. Hoje a única forma de atingir os estudantes mais carentes é através de material impresso ou visitas pessoais, algo que lutarei para tornar realidade num futuro breve.

Atravessei dezenas de rios , alguns de balsa e outros carregando a bicicleta ou até mesmo pedalando. Quando o litoral é de mangue ou a maré está cheia, vou pelas estradas e aproveito para ver um pouco da caatinga nordestina. Vi várias famílias se movendo com a bagagem nos jegues, muitos paus-de-arara, trabalhos praticamente escravos nos canaviais e coqueirais, criação de gado, aldeias indígenas e tranqüilas vilas coloniais com arquitetura barroca das igrejas, senzalas e casarios. Vi televisões por todas as partes – bares, calçadas, praças, casas, etc. – infelizmente, para muitos, as redes de televisão são a única fonte cultural que possuem. Uma fonte que infelizmente não importa muito com o fazer pensar do mundo em torno de nós.

Na bela e histórica cidade de Penedo, atravessei o mais extenso rio navegável do país, o São Francisco, na divisa de Alagoas e Sergipe. No início da viagem conheci sua nascente em Minas Gerais e tive a infeliz constatação de que a primeira cidade banhada pelo São Francisco é também a primeira a poluí-lo.

Hoje existe um projeto para transpor as águas do Rio São Francisco para abastecer as áreas secas do serão setentrional. O projeto gera muita polêmica, afinal toda interferência ambiental pode gerar problemas irreversíveis. Um exemplo claro disso é o Museu Oceanográfico de Mônaco que já comentei num relatório passado. Lá, apesar de terem todos os recursos e técnicos necessários, criaram uma catástrofe ambiental que está destruindo grande parte do mar Mediterrâneo.

Por consideração ao rio, não concordo que seja feita tamanha interferência num momento em que sequer estamos conseguindo mantê-lo limpo. Transpor um rio brincando de Deus é algo que exige muito respeito à natureza. Ainda não possuímos essa responsabilidade, prova disso é a poluição que segue sendo lançada nas nossas águas. Antes de fazer interferências mirabolantes, precisamos conscientizar todas as comunidades ribeirinhas a tratar seus esgotos, coletar seus lixos e respeitar o rio como ser sagrado. Será o primeiro passo para, depois, com muita cautela, fazer a transposição.

Não faltam motivos para essa transposição – várias pessoas morrem sem água nos sertões do Nordeste. Segundo a Organização das Nações Unidas, a vida é sustentável quando é possível dispor de, no mínimo, 1.000 metros cúbicos de água por habitante/ano. Em algumas áreas dos sertões dos estados de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará, que integram o Nordeste Setentrional e onde vivem cerca de 9 milhões de habitantes, a disponibilidade de água é de, aproximadamente, 500 metros cúbicos por habitante/ano.

“O que se pretende, agora, é captar, depois da barragem de Sobradinho, e levar para os sertões setentrionais do Nordeste, o equivalente a apenas 1% do volume médio despejado em sua foz, ou seja, 26 metros cúbicos por segundo destinados a garantir o consumo humano e animal” Ministro Ciro Gomes

Da foz do São Francisco segui pedalando pela minha “overdose” de praias e, na tarde do dia 24 de dezembro, peguei uma carona para conseguir chegar a tempo de comemorar o natal junto com amigos na maravilhosa e agitada Salvador.

Agora já estou longe da capital mas deixarei para escrever sobre o paradisíaco sul baiano no próximo relatório.

Um grande abraço,

Argus

VI o mundo

VENDO mudo

VIM DO mundo

VENTO mudo

VENHO muito

VENDO o mundo

Vendo ou mudo?

Para saber mais:

Fundação Joaquim Nabuco

www.fundaj.gov.br

www.ambientebrasil.com.br

www.sudene.gov.br

www.vermelho.org.br

www.palmares.gov.br

www.mi.gov.br

Apoios:

Pousada Varandas da Paz

www.varandasdapaz.com.br

Hotel São Francisco – Penedo

www.postaisdomorro.com

www.biotur.com.br

www.ondehospedar.com.br

www.totpizza.com

www.ilheuspraia.com.br

Jornais

O Dia – Rio de Janeiro daily

O Correio Brazilense – influential broadsheet

O Globo – Globo-owned Rio de Janeiro daily

Jornal do Brasil – Rio de Janeiro daily

Folha de Sao Paulo – daily

O Estado de Sao Paulo – daily

Televisões

TV Band – commercial network operated by Grupo Bandeirantes

Rede Globo – major commercial network operated by Globo

Sistema Brasileiro de Televisao (SBT) – major commercial network

TV Record – major commercial network

NBR – operated by state-run Radiobras

Rede TV – commercial network

TV Cultura – public TV network with educational, cultural programming

Radio

Radio Nacional – FM and mediumwave (AM) network operated by state-run Radiobras

Radio Globo – commercial network operated by Globo

Radio Eldorado – affiliated to O Estado de Sao Paulo newspaper, operates mediumwave (AM) news station and FM music station

Radio Bandeirantes – network operated by Grupo Bandeirantes

Radio Cultura – public radio network, cultural programming

Agencias de noticias

Agencia Brasil – state-owned

Agencia Estado – private, Sao Paulo-based

Agencia Globo – private