Etapa 6B – Relatório 1

Brasil – Recife e Olinda

Olá amigos, Bem vindo novamente o Brasil !

Cheguei mas ainda estou longe de casa – de Recife até Cordisburgo é a mesma distância de uma viagem da França até a Turquia! Ainda tenho muito chão. A receptividade do pernambucano me fez parar a viagem por mais tempo do que eu imaginava e somente agora estou recomeçando as pedaladas.

TRAVESSIA DO OCEANO ATLÂNTICO DE VELEIRO

500 ANOS DE COLONIZAÇÃO

Atravessar um oceano de avião comercial não tem muita graça e resolvi guardar esse pequeno trecho da viagem para escrever sobre a travessia do oceano Atlântico de veleiro que fiz no ano 2000 – Venezuela, Sint Marteen , Portugal (Açores, Lisboa, Madeira), Cabo Verde e Brasil.

A viagem de veleiro é muito diferente da de bicicleta. É muito mais introspectiva e silenciosa, requer um planejamento mais preciso e não dá margem a erro e improvisações. Foi um bom aprendizado e acredito que foi o embrião dessa minha atual aventura.

“A noite em alto mar é o silêncio.

As formas singelas e magestrais das ondas,

os vários desenhos das nuvens

e a beleza das estrelas

em volta da lua.

A paz.

Um espaço infinitamente maior que qualquer outro.

Preenchido exclusivamente com reflexão.

O som constante das ondas batendo no casco

se transforma em sinfonia com o baile

de uma gaivota no oceano.

Um balanço que dita a frequência

de pensamentos distantes.”

Poesia naufragada

2000

A regata que participei marcou os 500 anos da chegada dos portugueses no Brasil. Após quatro meses velejando vagarosamente com a cabeça a mil por hora, a expectativa da chegada em Santa Cruz de Cabrália, Bahia, era grande. Não tínhamos muitas mídias no barco e estávamos um pouco desinformados das notícias em terra firme. No dia 21 de abril de 2000, ancoramos, pegamos uma mochila, descemos do barco e caminhamos até o centro das comemorações. Em todo o caminho vi milhares de policiais defendendo a entrada desse centro e logo soube que estavam ali para proibirem mais de cem povos indígenas de se reunirem nesse local. Vários indígenas e militantes da causa foram espancados e retirados à força. Continuei andando e no tal centro estavam fazendo as comemorações oficiais dos 500 anos com a inacreditável hipocrisia de, na frente de câmeras, “presentear” o povo indígena com um shopping em forma de ocas e uma cruz católica imensa na praça principal – cruz credo.

“Os brancos precisam entender

a verdade que existe

e que tentam esconder.”

Aurivan Barros dos Santos

Líder Truká, de Cabrobó,

Ilha de Assunção – PE

A cena deixou a maioria dos brasileiros tristes mas infelizmente essa é a nossa realidade ainda hoje. Continuamos sem dar atenção aos povos nativos do nosso próprio país e seguimos pecando como pecaram os portugueses nos tempos coloniais. Nós que somos filhos da mistura entre colonizadores, indígenas e africanos, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

“Nem ressurgidos, nem emergentes, somos povos resistentes”

Frase indígena no site do CIMI

Foto: Indígena que hoje vive catando papel na rua

“O país possuía 5 milhões de habitantes quando os portugueses chegaram; agora restam apenas 350.000. Dos 1000 povos existentes no início da colonização, apenas 200 resistiram (dentre eles 50 permanecem sem contato com os brancos).” The New Internationalist


Voltando à terra…

“Eu vi o mundo… Ele começava no Recife.”

Cícero Dias

. Nordeste do Brasil – Recife e Olinda

Depois de dois dias de conexões e vôos, cheguei em Recife e, pela última vez, desembalei a bicicleta e sai pedalando do aeroporto para o centro. Quase fui atropelado duas vezes e me assustei com a imensidão da cidade. A capital pernambucana é muito maior do que capitais de vários países que conheci.

Agora estou sem saber se o Brasil é o vigésimo nono ou novamente o primeiro país do percurso. Depois de tanto tempo vendo o mundo com os olhos de um observador, aqui no Brasil estou me readaptando à mescla de espectador e parte da vida local.

Recife parece ter ficado por muito tempo fadada ao paradigma da pequena cidade das belas praias e do frevo com suas expressões culturais apagadas pelo eixo Rio-São Paulo. Mas Recife é imensa em tamanho e arte. Sua riqueza cultural sempre existiu (salve Luiz Gonzaga) mas agora está em parceria com a auto-estima que chegou em avalanche desde os tempos de Chico Science e o movimento Mangue.

“Um passo a frente e você já não está mais no mesmo lugar.”

Chico Science

Vivi nostalgicamente caminhando pelo conturbado centro com o prazer de ser mais um no meio da multidão. Poder novamente me comunicar com todos e entender os milhões de códigos cuja percepção vai muito além do conhecimento do idioma.

Tive sorte, cheguei já com contatos de bons amigos e habitei na casa de vários. A primeira casa possui uma porta que projetei e eu nem sabia que existia uma cópia aqui em Recife. Foi ela a primeira porta que se abriu para mim no Brasil. Que bacana.

Logo conheci muitos outros amigos. O nordeste tem um calor humano que impressiona. Em poucos dias comecei a encontrar conhecidos pela rua e me sentir como um morador local. Parece que aqui todos gostam de ir para as ruas e festejar. Não por acaso, a maior concentração de pessoas nas ruas do mundo é no carnaval de Recife, quando acontece o famoso Galo da Madrugada.

Infelizmente a festividade e a alegria são para poucos. A grande maioria da população vive em péssimas condições e muitos sobrevivem pior que um cachorro pelas ruas.

De todas as dores que essas cenas de miséria possam transmitir, a pior delas é perceber que isso já virou rotina e são poucos os que ainda se sensibilizam ao passar por alguém morrendo de fome na calçada.

Em contrapartida, o prefeito gastou 480 mil reais (160 mil dólares) para pagar o show de Sandy e Júnior na praça principal. O governo considera que fez um presente para as crianças. O valor de um único show foi o mesmo que a prefeitura utilizou em cultura durante cinco anos! Com isso eles poderiam ter comprado 200 computadores para as escolas!

A população fez muitos protestos mas nada adiantou. O pior é que muitas pessoas, encantadas por uma mídia manipuladora, lotaram o show e celebraram mais uma vez o pão e circo da vida.

Em toda a viagem encontrei turistas de várias partes, principalmente europeus, me perguntando sobre a violência no Brasil. Sempre respondo que ela realmente existe e que, por exemplo, o filme “Cidade de Deus” não é ficção. Mas essa violência está concentrada nas grandes cidades, onde as diferenças sociais e a guerra civil ficam mais explícitas. Mas o Brasil é imenso e, principalmente nos pequenos vilarejos, é possível encontrar uma segurança perfeita. Sigo a viagem tranquilo e desarmado, carregando apenas corpo e alma. Cem por cento partidário do projeto de desarmamento que está tentando ser implantado no país.

Mais uma vez o ser humano brincou de Deus e fez uma interferência catastrófica no meio ambiente. Dessa vez foi a construção do porto de Suape e de alguns hotéis da região. Isso desestabilizou a fauna marinha e hoje os tubarões, por falta de alimento, estão atacando os banhistas. Agora todos que gostam do mar, principalmente os surfistas, vivem o masoquismo de ir na praia e não poder nadar.

No Marco Zero, onde está ereta a escultura de Brennand, encontrei uma garotada pulando na água. Ali, pela primeira vez no Brasil, pude reunir uma turma para mostrar fotos e falar dos países que visitei.

Foi quando me dei conta do desconhecimento que nós brasileiros temos do mundo, principalmente dos países que nunca tiveram oportunidade de contar sua história.

Foto: Altos edifícios numa malha urbana que não comporta a densidade de automóveis e pessoas que está por vir. Mais uma vez o erro urbanístico se repete nas grandes cidades do Brasil.

Agora seguirei viagem mais leve. Despachei o meu notebook, barraca, saco de dormir e outras luxuosidades que me pesavam. Seguirei confiante em encontrar hospitalidade e condições de escrever e manter o site independente do notebook. Hoje mesmo estou aproveitando o computador da casa do amigo Roger e escrevendo esse texto antes de partir.

Estou com o pensamento de pedalar diretamente na areia da praia até o sul da Bahia, aproximadamente mil e quinhentos quilômetros daqui, e lá fazer outra parada longa.

Em breve consigo outra oportunidade e envio mais notícias para o site.

Grande abraço,

Argus


Para saber mais:

Conselho Indigenista Missionário

www.cimi.org.br

ACONERUQ-MA

Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão

CONAQ

Coordenação Nacional da Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas

SELAVIP

Latin American and Asiatic Service for Popular Housing

Outros órgãos:

www.contag.org.br

www.nead.org.br

www.andi.org.br

www.undp.org.br

www.cohre.org

Tubarões na praia – Porto de Suape

www. suape .pe.gov.br

www.comciencia.br/reportagens/litoral/lit19.shtml

Ministério da Educação do Brasil

www.mec.gov.br

Grupo de ciclistas que saem de noite pedalando por Recife.

Valeu pela mudança no percurso que fizeram para mim!!

www.corujaqueira.com.br

Jornal Diario de Pernambuco

www.pernambuco.com

Arte em Toda Parte

www.arte.olinda.info

O mar tá em toda parte, Enfarte em toda parte,…

TV Universitária

www.tvu.ufpe.br

Luni Produções – apoiadora do projeto Pedalando e Educando em Recife

www.luni.com.br

Outros:

www.lulaqueiroga.com.br

www.institutoricardobrennand.org.br

www.mcn.edu/resources/sitesonline.htm